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Acusado de golpe, pastor cego promete restituir vítimas

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Pastor Osorio José Lopes diz ter renda mensal de cerca de R$ 50 mil

O pastor goiano Osório José Lopes Júnior, de 42 anos, acusado de estelionato ao prometer retornos milionários em investimentos que envolviam depósitos financeiros na conta bancária dele, afirmou em interrogatório prestado à Justiça nesta segunda-feira (8) que precisa de quatro ou cinco meses para reparar os danos causados às 11 pessoas que o denunciaram por uma série de golpes. Na mesma oitiva, Osório disse morar em São Paulo e ter uma renda mensal em torno de R$ 50 mil como pastor e escritor.

As acusações contra o pastor, que se diz cego, envolvem vítimas de Goianésia, quando ele ainda atuava em Goiás, e teriam ocorrido em 2018. Em março de 2022, o caso veio novamente à tona quando o programa Fantástico, da Rede Globo, mostrou detalhes também de outra denúncia contra o Osório, desta vez em São Paulo. Também são acusados, pelo menos em Goiás, mais duas pessoas: o pastor Alencar Santos Buriti, de 58 anos, e o comerciante Adilson Ney Lopes, de 57.

Osório é suspeito de usar sua influência religiosa para de forma presencial e também em seu canal no YouTube conseguir mais de R$ 15 milhões em golpes. Segundo as denúncias, ele arrecadava dinheiro para investimentos fictícios prometendo retornos financeiros irreais, na ordem de milhões. Para isso, chegou a usar o nome do ministro da Economia, Paulo Guedes, e garantiu pagamento de quatrilhões de reais.

O novo interrogatório foi dado agora em 8 de novembro para a juíza Placidina Pires, da 1ª Vara dos Feitos Relativos a Delitos Praticados por Organização Criminosa da Comarca de Goiânia. Ele não quis responder nenhuma das perguntas, garantindo seu direito a permanecer em silêncio, mas falou sobre a intenção de reparar o que chama de “dano” causado por “empréstimos” que estas pessoas fizeram aos três acusados.

Ao dizer que não estava respondendo às perguntas, mas reforçando algo que disse em outros depoimentos, o pastor afirmou que “não esperava uma situação daquelas”, “de chegar onde chegou” e frisou que os fiéis “emprestaram” os recursos. Ele também disse que já queria ter feito as restituições, mas ficou em dúvida porque, como a acusação envolve ele e mais duas pessoas e uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) impedia que o trio tivesse contato um com outro, isso dificultaria a quitação dos alegados débitos.

Questionado pela juíza sobre o tempo que precisaria para fazer a reparação às vítimas, o pastor respondeu que de quatro a cinco meses. E também perguntado sobre sua renda mensal e com o que trabalha, disse ser pastor e escritor e ganhar em torno de R$ 50 mil por mês.

"EMPRÉSTIMO"

O pastor prestou o primeiro depoimento em 2019 se dizendo “assustado” e “trêmulo” com as acusações, mas argumentou que não poderia detalhar a negociação que foi feita e que deu origem às acusações falsas. “Estou me sentindo um dos piores homens da Terra”, disse na época. Ele também negou o valor de R$ 12 milhões que a Polícia Civil o acusou de desviar, dizendo que no máximo passou pelas suas contas cerca de R$ 4 milhões.

Sempre frisando estar sendo honesto em suas declarações, ele comentou na audiência de 2019 que fez uma “loucura”, que “foi muito moleque” acreditando que teria um retorno rápido que não aconteceu e que fez gastos desnecessários e elevados. Afirmou ter comprado carros que já não existiam mais pois precisou vendê-los para sustentar a família. “Peguei emprestado e vou pagar todo mundo e não tenho intenção de dar calote em ninguém.”

O pastor também afirmou que se a Justiça entender ao fim do processo que houve um erro, a culpa foi dele e não dos outros dois acusados. Questionado sobre qual seria esse possível erro, ele alegou que foi ter feito as negociações sem documentos, acreditando na palavra das pessoas. “Se tivesse esses documentos aqui, o senhor confiaria em mim”, disse ao então juiz responsável pelo caso.

Posteriormente, o pastor pediu também em 2019 uma nova audiência para poder esclarecer os negócios e a Justiça autorizou, mesmo o MP-GO sendo contra. Desde então, o religioso mudou de advogado e o processo, de Vara, indo para a na época recém-criada vara que apura crimes de organizações criminosas. Porém, neste novo interrogatório, ele disse que era para considerar o que foi dito no primeiro, apenas acrescendo a informação sobre a vontade de devolver o dinheiro.

FASE FINAL

Após a oitiva do dia 8, os advogados dos outros dois réus pediram um prazo para entregarem novas alegações finais, o que foi concedido, assim como deu um novo período para que o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO), caso quisesse, pudesse retificar os memoriais, assim como a própria defesa do pastor. É a última etapa antes da sentença ser dada pela magistrada.

Após a reportagem do Fantástico, o MP-GO chegou a pedir a prisão preventiva do pastor, mas a Justiça negou no fim de março. A alegação era que a denúncia feita em São Paulo é relativa a casos de 2021, enquanto os de Goianéisa são de 2013 a 2014, o que indica que o religioso tinha voltado a aplicar golpes. Pelos crimes em Goiás, o pastor chegou a ficar 30 dias preso até conseguir uma decisão de soltura pelo STF.

Na mesma matéria, o Fantástico apontou que o religioso tinha uma vida de luxo supostamente bancada por recursos oriundos de golpes.

Osório tem uma deficiência que debilita muito sua visão e que fez com que a imprensa e parte dos fiéis afirmassem que ele é cego.

Ele atraía as vítimas com a promessa de obter lucros do Tesouro. Seu canal no YouTube chegou a ter mais de 200 mil inscritos. Ele apresentava, segundo as vítimas, supostas cópias de documentos de títulos de dívida agrária e do Tesouro Nacional em valores milionários para convencê-las.

A defesa dos réus nega os golpes e trata dos recursos repassados pelas vítimas como oriundos de “negócios” com os acusados e empréstimos. A reportagem não conseguiu contato com os advogados.

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