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Em Goiás, UTIs neonatais enfrentam superlotação

Cristina Cabral
UTI Neonatal em maternidade

Ao longo de todo o mês de junho, a taxa de ocupação das Unidades de Terapia de Intensiva (UTIs) neonatais da rede estadual de Saúde tem se mantido acima de 90%, sendo que em quatro dias atingiu 100%. A alta taxa de ocupação tem sido uma constante pelo menos desde o começo de 2023. Atualmente, a rede conta com 44 leitos próprios, mas precisa contratar mais cerca de 50 para ajudar a suprir a demanda. A superlotação obriga a Secretaria de Estado de Saúde (SES-GO) a fazer uma ginástica com leitos e traz insegurança para pais e mães.

Segundo a SES-GO, as principais causas de internação nesse tipo de UTI são baixo peso (peso ao nascer inferior a 1,5 quilo), prematuridade, infecções congênitas, icterícia não-fisiológica, asfixia perinatal (quando o bebê fica sem oxigenação no momento próximo ao nascimento), anomalias congênitas importantes, síndromes hemorrágicas, convulsões, pré e pós-operatório, sofrimento fetal crônico, dentre outros.

A superintendente de Políticas de Atenção Integral à Saúde da SES-GO, Paula Santos, reconhece que os leitos de UTI neonatal da rede estão sobrecarregados, mas destaca que o número de vagas sofreu ampliação nos últimos anos. De acordo com dados do painel de monitoramento de leitos da SES-GO, até janeiro de 2022 o estado tinha apenas 10 leitos próprios. O número saltou para 34 em abril do ano passado e depois para 44 em maio do mesmo ano, número que se mantém estável até agora.

De acordo com a SES-GO, a intenção é abrir mais 10 leitos próprios de UTI neonatal no Hospital Estadual de Águas Lindas, com previsão de entrega para fevereiro de 2024. “Trabalhamos fortemente na regionalização do atendimento”, diz Paula. Anteriormente, um bebê que nascia em Porangatu e precisava de uma UTI neonatal era encaminhado para Anápolis, cidade a cerca de 377 quilômetros. Agora, ele vai para o Hospital Estadual do Centro-Norte Goiano (HCN), em Uruaçu, a cerca de 131 quilômetros. “Considerando a alta demanda no Entorno do Distrito Federal, optamos por alocar os leitos lá (em Águas Lindas) estrategicamente”, afirma a superintendente.

Além dos leitos próprios, a SES-GO tem cerca de 50 leitos contratados junto com as prefeituras em hospitais particulares de Goiânia, Anápolis, Aparecida de Goiânia e Catalão. “É claro que o ideal é ter leitos nossos, mas precisamos suprir a alta demanda que existe neste momento e essa é uma saída viável, já que para abrir leitos de UTI neonatal é necessário ter tempo para montar uma infraestrutura específica e equipes que prestam serviço especializado”, aponta Paula.

Na tentativa de minimizar o tempo de espera por um leito de UTI neonatal, Paula conta que a SES-GO adota diversas estratégias. Segundo ela, quando se sabe que um recém-nascido pode vir a precisar de uma UTI neonatal, o parto é organizado para ocorrer no Hospital Estadual da Mulher (Hemu), unidade de saúde que é referência no estado para o tratamento de gestantes e prematuros.

Além disso, a equipe que regula as vagas faz um constante trabalho de manejamento. “Trabalhamos na otimização do uso dos leitos. Se o bebê já está melhor, passamos ele para um leito de menor complexidade para ceder espaço para quem precisa. Quando o bebê tem mais de 28 dias, ele passa a ocupar um leito de UTI pediátrico e abre espaço para outro”, diz.

A rede estadual também iniciou o trabalho com o Método Canguru, um tipo de assistência neonatal baseada no contato pele a pele entre pai, mãe e bebê. “Já adotamos essa estratégia no Hemu. É comprovado que esse método traz resultados muito positivos na recuperação dos bebês, o que, consequentemente, faz com que essas vagas girem mais rápido”, argumenta.

Medidas

A diretora da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP), Mirna de Sousa, esclarece que a questão da superlotação das UTIs neonatais é complexa. “É apenas a pontinha de um iceberg. É preciso olhar para uma melhor qualificação da assistência pré-natal para prevenir a prematuridade dos bebês. Historicamente, passamos por um processo de sucateamento da Atenção Primária no País”, aponta.

Porém, a presidente da SGP destaca que também é importante ter uma infraestrutura mais qualificada nas unidades que possuem UTIs neonatais. “Além de mais UTIs, precisamos de mais suporte. O recém-nascido é muito frágil e muita coisa interfere no tempo de sobrevivência dele: desde a maneira que é transportado de um local para o outro até a temperatura do local onde ele está”, enfatiza. A especialista também acredita que é importante ter uma quantidade maior de profissionais habilitados. “Falta uma assistência qualificada”, frisa Mirna.

Angústia

Mesmo com os esforços mencionados pela SES-GO, os pais e mães de crianças que precisam de UTIs neonatais dizem que se sentem inseguros e angustiados com a possibilidade de terem que esperar por tempo indeterminado por uma vaga. A presidente da Associação Amigos do Coração, Martha Medeiros, explica que mães e pais de bebês que nascem com cardiopatias e estão sendo assistidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) constantemente enfrentam a angústia de esperar por dias um leito de UTI neonatal. “Muitas cardiopatias só são descobertas depois que as crianças nascem. Não tem como reservar uma vaga e nunca sobra. Por isso, é sempre uma correria para conseguir”, relata.

No dia 15, o presidente Lula (PT) sancionou a Lei 14.598, que garante um ecocardiograma fetal e duas ultrassonografias transvaginais a todas as gestantes na rede pública. Apesar de feliz com a conquista, Martha teme que a rede pública não dê conta da demanda que vai surgir, já que muitos casos serão diagnosticados. “Atualmente, tem somente uma cardiologista pediátrica no Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad). A rede estadual não tem estrutura para a demanda que existe”, finaliza.

Cidades também precisam contratar

Em Goiânia, a rede municipal de saúde possui dez leitos de UTI neonatal no Hospital e Maternidade Municipal Célia Câmara (HMCC), dez na Maternidade Dona Iris e outros oito no Hospital das Clínicas (HC). Além disso, o município possui 50 leitos contratados no Hospital da Criança, Hospital Jacob Facuri e Maternidade e Hospital São Judas Tadeu. 

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), em média, “Goiânia mantém uma taxa de ocupação acima de 90%, pois sempre que não há demanda pelas unidades do município, a regulação abre para solicitações do Complexo Regulador Estadual (CRE)”. A SMS pontuou ainda que está “sempre atenta às necessidades e possibilidades de ampliação.”

As prefeituras das duas segundas maiores cidades goianas não possuem leitos de UTI próprios. A rede municipal de saúde de Aparecida de Goiânia, com 601,8 mil habitantes, conta com 10 leitos de UTI neonatal no Hospital Garavelo, unidade privada e conveniada com o SUS, que funcionam em parceria com a SES. Na última quarta-feira (20), todos estavam lotados. Não existe previsão de ampliação da oferta.

Entretanto, de acordo com a SMS da cidade, “o atual número de leitos ofertados em Aparecida tem atendido a demanda existente no município. Inclusive, a cidade é referência na região Centro-Sul e recebe pacientes de outros 25 municípios por meio de pactuação com o Estado de Goiás.”

Anápolis, com 396,5 mil habitantes, usa os leitos da Santa Casa da cidade. No dia 25 de maio, a unidade de saúde informou que iria suspender os serviços não-emergenciais no Pronto Socorro Obstétrico, inclusive as admissões via complexo regulador municipal e o serviço ambulatorial de coleta de exames laboratoriais por conta de insuficiência de medicamentos, materiais e equipe médica e multiprofissional. No dia 27, após negociações com a prefeitura da cidade, os serviços foram retomados.

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