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Goiânia quer ampliar oferta do DIU no SUS

Diomício Gomes
Tamara, mãe de Thalia e Davi Henrique, foi uma das primeiras mulheres a receber o DIU em uma unidade de atenção primária de saúde em Goiânia

Criado em janeiro deste ano pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia, o programa Planejar para Viver Melhor pretende ampliar, através da rede de atenção primária, o número de inserções do dispositivo intrauterino (DIU) como método contraceptivo no Sistema Único de Saúde (SUS). No ano passado, as três maternidades públicas municipais da capital inseriram cerca de 1,3 mil DIUs. A partir do novo programa, a expectativa é que o procedimento seja realizado nos postos de saúde dos sete distritos sanitários de Goiânia. A medida já foi implantada em três Unidades de Saúde da Família.

Tamara Alves Ribeiro, 29 anos, foi uma das primeiras mulheres a receber o DIU em uma unidade de atenção primária de saúde em Goiânia. “Sou moradora do Bairro da Vitória e faço meu acompanhamento no postinho do São Carlos. Fui informada desta possibilidade e fiquei muito feliz porque eu já tinha tentado operar pelo SUS, mas não tinha conseguido.” Há quase um ano usando o DIU, a vendedora acredita que foi uma ótima decisão. “Eu tomava anticoncepcional, mas me sentia muito mal. Agora não sinto nada, deu tudo certo”, comemora.

Superintendente de Gestão de Redes de Atenção à Saúde da SMS, Cynara Mathias explica que a inserção do DIU é uma das estratégias de planejamento familiar. “O programa Planejar para Viver Melhor possui três pilares: ampliar a carteira de serviços na atenção primária; qualificar as redes de atenção primária por meio de capacitação de médicos e enfermeiros e inserir o DIU na atenção primária.” Um grupo de trabalho, capitaneado pelo ginecologista e obstetra Júlio Porto, que é servidor municipal, passou a capacitar os profissionais nos “postinhos” da capital para esse fim.

Além da Maternidade Nascer Cidadão (MNC), do Hospital e Maternidade Municipal Célia Câmara (HMMCC) e do Hospital e Maternidade Dona Iris (HMDI), as unidades de saúde dos bairros Santa Rita, São Carlos e Condomínio das Esmeraldas, já oferecem o serviço. Cynara Mathias acredita que muito em breve, mais de 50% dos postos da capital, espalhados pelos sete distritos sanitários, terão profissionais aptos a inserir o DIU. O programa da SMS de Goiânia, surgiu seis meses antes da Nota Técnica nº 31/2023, do Ministério da Saúde, divulgada em junho, prevendo a ampliação da disponibilidade do DIU no SUS. O documento orienta que a colocação e retirada do dispositivo seja feita também por enfermeiras e não somente por médicos.

Cynara Mathias relata que até o momento, dentro do programa, foram capacitados mais de 168 profissionais, e que após atingir todas as unidades de saúde, “o trabalho será uma rotina, até porque temos uma alta rotatividade de profissionais”. A superintendente lembra que o objetivo da SMS é fortalecer a atenção primária. “Quando oferecemos esse serviço, evitamos um grande número de encaminhamentos para a rede de atenção secundária, ou especializada, como as maternidades”. A vendedora Tamara Ribeiro tentou inserir o DIU na maternidade onde deu à luz aos dois filhos, mas desistiu “pelo excesso de burocracia”.

O DIU oferecido pelo SUS é o de fio de cobre, preconizado pelo Ministério da Saúde. O dispositivo em formato de “T” ou “Y”, é feito de um fio de prata revestido de cobre e não possui hormônios ou material tóxico. As alterações bioquímicas causadas pelo DIU impedem que os espermatozoides fecundem os óvulos. A inserção é simples, feita no consultório, e não exige internação. O DIU tem duração de dez anos e é oferecido pelo SUS sem nenhum custo. Além da longa duração, o método é considerado um dos mais seguros e eficazes, podendo ser removido a qualquer momento, sem nenhum prejuízo à fertilidade. Após 45 dias do procedimento, uma ultrassom indica se o dispositivo foi inserido corretamente ou se há necessidade de ajustes.

Menor de 18 anos precisa de autorização 

A orientação sobre a inserção do DIU nas unidades de atenção primária na capital é feita às mulheres que fazem acompanhamento no local. Superintendente de Gestão de Redes de Atenção à Saúde da SMS, Cynara Mathias explica que a grande maioria ainda prefere as pílulas, por considerá-las menos invasivas, mas ela acredita que ainda há muito desconhecimento sobre a eficácia do DIU. “Um dos princípios do SUS é a integralidade, por isso estamos reforçando o seu papel fundamental no planejamento reprodutivo e familiar, no âmbito da atenção integral à saúde e apresentando todos os métodos de contracepção.” No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, somente 4 em cada 100 brasileiras em idade fértil e sexualmente ativas usam o DIU.

Nem todas as mulheres podem ter acesso ao DIU na rede pública. A idade mínima recomendada é 16 anos, mas menores de 18 devem ter autorização ou acompanhamento dos pais ou responsáveis. Em outros casos vai depender da saúde da mulher, orientação que é repassada pelo profissional de saúde responsável. Além de documentos como RG e CPF, a mulher interessada em solicitar a inserção do DIU, deve ficar atenta aos limites de idade, apresentar cartão SUS e comprovante de residência.

Método pode ajudar a combater gravidez na adolescência 

O dispositivo intrauterino (DIU) é um dos métodos contraceptivos fundamentados em princípios e valores dos direitos humanos e sexuais indicados não apenas pelo Ministério da Saúde, mas também por organismos como a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). 

O dispositivo pode ser fundamental para enfrentar um dos grandes desafios da saúde pública no Brasil, a gravidez na adolescência, que repercute tanto na saúde das mães quanto na dos recém-nascidos. Números do ano passado mostram que 380 mil nascimentos no Brasil são provenientes de gestações de adolescentes, de até 19 anos. 

O estudo Saúde Brasil 2018, divulgado pelo Ministério da Saúde, indica que uma das maiores taxas de mortalidade infantil no País está entre filhos de mães mais jovens, de até 19 anos, correspondendo a 15,3 óbitos para cada mil nascidos vivos (acima da taxa nacional, de 13,4 óbitos).

 Além da imaturidade biológica, condições socioeconômicas desfavoráveis são fatores que, segundo o estudo, influenciam nesta taxa de mortalidade infantil mais elevada. 

A pasta estima que mais da metade das gestações (55%) no Brasil não são planejadas. “A gravidez indesejada é uma epidemia silenciosa, sobretudo entre adolescentes, contribuindo para o aumento da mortalidade materna e do número de abortamentos clandestinos”, segundo Dannyelly Costa, coordenadora da Comissão Nacional de Saúde da Mulher.

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