Dentro de projetos de humanização, hospitais apostam cada vez mais em 'terapeutas de quatro patas' para promover o bem-estar físico e emocional dos pacientes
Como ocorre uma vez por mês, ontem (2) foi dia de Terapia Assistida por Animais (TAA) no Hospital de Doenças Tropicais, unidade da Secretaria de Estado da Saúde (SES) sediada em Goiânia, que é referência em doenças infectocontagiosas e dermatológicas. Dentro do Projeto Humanizar, 14 cães de raças ou de raças não definidas, fizeram a alegria de adultos e crianças num movimento cada vez mais reconhecido pela ciência como essencial no processo de recuperação dos pacientes. A interação com animais surgiu com Hipócrates, considerado o pai da medicina, que utilizava cavalos 400 a.C. para regenerar a saúde de seus pacientes.
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Em todo o Brasil a TAA vem sendo adotada de forma sistemática nas últimas décadas. Em Goiás não tem sido diferente. Em 2017 surgiu o projeto de extensão de TAA no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG) criado pela Escola de Medicina Veterinária e Zootecnia (EVZ-UFG) que inspirou Cleres Bisol a se dedicar a esse tipo de voluntariado. Hoje, a comerciante coordena um grupo de pessoas dispostas a levar seus animais para amenizar a passagem de pacientes em tratamento em hospitais e atendidos em diversas instituições. "Para mim também é uma terapia. É muito bom chegar num lugar de dor e sair de lá com o coração quentinho. É emocionante e, sobretudo, gratificante." Cleres conta que são os "vira-latas" que fazem maior sucesso com a criançada. "Talvez porque tenha deixado algum parecido em casa."
Gerente Operacional do HDT, Tainara Fernandes também fala de emoção quando menciona os animais. "O ambiente muda por completo, os sorrisos ficam abertos. Muitos pacientes estão internados há muito tempo e o contato com o mundo externo é somente através do acompanhante." Quando os "terapeutas" de quatro patas chegam no hospital passam primeiro pelo corredor administrativo quebrando a sisudez do ambiente de trabalho. "Todos se envolvem, querem passar a mão e tirar fotos", diz Tainara. Os cães não acessam quartos e enfermarias. O contato com os pacientes é feito numa área próxima ao parque infantil.
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No HDT, que é gerido pelo Instituto Sócrates Guanaes (ISG), a TAA integra um projeto maior de humanização que proporcionou, em 2016, um prêmio do Ministério da Saúde à unidade da SES. Para fazer com que a experiência da internação seja acolhedora e empática, são oferecidas a adultos e crianças durante a semana várias ações como celebrações em datas comemorativas, apresentações musicais, cinema, rodas de conversa, atividades lúdicas (brinquedoteca, oficinas de pintura e massinha), visitas do grupo Palhacia (palhaços) e de animais.
Para Tainara Fernandes, "a humanização hospitalar vai além do cuidado clínico; ela transforma a experiência do paciente, proporcionando acolhimento, segurança e bem-estar". A enfermeira lembra que o Projeto Humanizar, que sistematizou todas as ações de acolhimento que vinham sendo implementadas pela unidade, ajudam a reduzir o estresse da internação, fortalecem o vínculo entre equipe e pacientes e tornam o ambiente hospitalar mais leve e humanizado. "Esse olhar sensível faz toda a diferença no processo de recuperação e na qualidade do atendimento prestado."
A personal trainer Eldilane Amorim Zimbra, moradora de Nerópolis, chegou ao HDT há uma semana com muitas dúvidas sobre a saúde do filho Afonso, de 1,4 meses. Ela acreditava que o garoto tinha um quadro de bronquiolite, mas no hospital foi diagnosticado com cetoacidose diabética e precisou ficar na UTI pediátrica. "Ele estava estressado, chorando muito. Depois que foi para a brinquedoteca, melhorou. Até trouxe uma bolinha para a UTI." Para a mãe de Afonso, o contato com os animais poderá encurtar o caminho de volta para casa. "Ele ama animais."
No HMAP, de 'jaleco' e sapatos
Como alternativa terapêutica, desde 2022, em parceria com o Regimento de Cavalaria Montada da Polícia Militar, o Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia (HMAP) Iris Rezende Machado leva equinos para visitar pacientes na unidade. A primeira ação ocorreu em outubro daquele ano por ocasião do Dia das Crianças. O sucesso foi tamanho que atualmente as visitas são mensais. Desde o início da ação, 550 pacientes do hospital foram beneficiados. Isso porque, para a interação, o paciente passa por uma avaliação pela equipe multiprofissional. Se não houver barreira para sua segurança, ele é liberado para o contato.

Égua Luziânia visita leitos no HMAP devidamente paramentada (Divulgação)
A mais festejada visitante é a égua Luziânia, que por ser muito mansa se aproxima de alguns leitos em áreas autorizadas pela equipe médica. Gean Carlos, coordenador multiprofissional do HMAP, unidade administrada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, salienta que esses gestos fazem diferença porque o tratamento fragiliza emocionalmente o paciente. Luziânia entra no interior do hospital devidamente paramentada. Ela se exibe com um "jaleco" próprio e com sapatos e, se por acaso surgir uma "surpresinha" inesperada, tem alguém atrás para recolher antes que toque ao chão.
O Regimento de Cavalaria Montada tem feito ações semelhantes em outras unidades de saúde, como o HDT. Normalmente cavalos e éguas são levados para áreas abertas possibilitando o toque e a montaria. O entrosamento promove o bem-estar emocional, estimula a socialização e o desenvolvimento cognitivo. Por garantir emoção, sorrisos largos e curiosidade no ambiente hospitalar, a Cavalaria foi homenageada em outubro do ano passado pela direção do HMAP.
Comprovação ao longo da história
A literatura mostra que o médico grego Hipócrates, que passou para a história como o pai da medicina, foi o primeiro a usar animais em busca do bem-estar do paciente. Em 1792, a TAA foi utilizada de forma intuitiva no tratamento de doentes mentais. Os primeiros relatos de equoterapia para melhorar o controle postural, a coordenação e o equilíbrio de pacientes com distúrbios articulares também são do século 18. Em 1860, a enfermeira italiana Florence Nightingale, que desenhou os preceitos da enfermagem moderna a partir da Inglaterra, também recomendou a presença de animais de estimação para pacientes crônicos.
No Brasil, foi Nise da Silveira, que propôs na primeira metade do século 20 uma nova forma de tratamento com cães e gatos para pacientes que sofriam de esquizofrenia e outros problemas mentais. A psiquiatra passou para a história por se manifestar contra técnicas agressivas, como eletrochoque, camisas de força, lobotomia e confinamento. Nos anos de 1960, o psicólogo norte-americano Boris Levinson desenvolveu a Psicoterapia Facilitada por Animais, utilizada no tratamento de transtornos de comportamento, déficit de atenção e problemas de comunicação em crianças.
Estudos têm revelado que a intervenção médica complementar por TAA apresenta uma série de benefícios, como redução de dor, de tristeza, de ansiedade e de fadiga crônica, além de estimular a atividade física e melhorar os parâmetros cardiovasculares. A atividade também melhora a comunicação dos pacientes com a equipe multidisciplinar hospitalar, quebrando a tensão e o estresse.
A TAA exige protocolos. Os animais precisam ser vacinados e adestrados para que não tenham dificuldades com a ambientação. Os tutores também precisam estar ao lado o tempo todo. "O cão tem de ser dócil, calmo, obediente, não assustar com qualquer tipo de barulho, não latir e nem pular demais", explica Cleres Busol. Todos os tutores que participam do projeto possuem certificado de voluntariado emitido pela OVG. Como alguns são doadores de sangue, ganham uma bateria de exames a cada três meses.