Geral

Rio Meia Ponte tem 490 em fila parada para captação de água

Wildes Barbosa
Captação de água no Meia Ponte, em Goiânia: manancial ainda não atingiu nível de alerta para abastecimento

Na porção chamada de Alto Meia Ponte há 490 pedidos de outorga, ou seja, possíveis usuários interessados em retirar água do manancial. Do total, 45% são de interferência direta em rios e reservatórios. Se atendidas todas as solicitações, a soma destas vazões chegaria a 6,6 mil litros por segundo (l/s). O valor é quase três vezes o permitido para a Saneago: 2,3 mil l/s.

O acúmulo de pedidos se deve à situação de escassez hídrica do Alto Meia Ponte. A divisão territorial inclui os municípios a jusante da captação de abastecimento público da Saneago, no Setor São Domingos, em Goiânia. A restrição existe há anos. Em todas as estações de estiagem, sobretudo nos meses de setembro e outubro, a vazão reduz.

A legislação prevê prioridade para o abastecimento público e a dessedentação de animais. Quando o manancial atinge vazão igual ou menor que 4 mil litros por segundo, os usuários de águas subterrâneas têm de reduzir a captação em 25%. Mas esta restrição pode chegar a até 50% a depender da disponibilidade hídrica no ponto de captação da Saneago, em Goiânia.

Em 2017, houve uma escassez severa. Desde então, a bacia do Meia Ponte tem tido uma recuperação discreta. Também houve maior controle por parte da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) das captações de 2019 para cá. O período seco de 2020 teve menos problemas na comparação com os anos anteriores.

Para atender à demanda hídrica no Alto Meia Ponte, o comitê da bacia instituiu um processo de alocação negociada.

No intuito de permitir a entrada de novos outorgantes no sistema, o comitê da bacia iniciou um processo de alocação negociada. O mecanismo consiste em convocar os usuários do manancial para verificar a possibilidade de cessão do recurso.

“A ideia é justamente esta. Por exemplo, pode ter um usuário com direito a captar 200 l/s, mas não precisa disto todos os dias da semana e abaixo dele alguém precisa de 20 l/s”, explica o presidente do comitê, Fábio Camargo.

O presidente afirma ainda que a alocação negociada é de interesse da sociedade como um todo e que caso não se viabilize, o poder público tem o poder de rever o que já foi concedido. “É a saída que se encontra no momento para a gente outorgar mais gente”, finaliza Camargo.

A Semad afirma que a alocação negociada é conduzida por meio de informações técnicas sobre a disponibilidade de água.

Divisão

A bacia, informa a secretaria, foi dividida em 16 áreas com um ponto de controle em cada uma delas. “No momento, o conselho está concluindo o balanço hídrico em cada um desses pontos, para depois definir em quais deles existe disponibilidade hídrica suficiente para a liberação de novos pedidos de uso. ”

A instalação da alocação negociada foi noticiada pelo jornal em julho de 2022. À época, havia deliberação do comitê para que o grupo de trabalho da alocação negociada fizesse estudos e apresentasse propostas em até 90 dias. A complexidade do trabalho, no entanto, exige mais tempo para a tarefa.

Em 2020, a bacia tinha 740 produtores cadastrados e 236 irrigantes, com consumo total estimado em 1,2 mil l/s. Há no manancial a utilização sem autorização do recurso hídrico, apesar da fiscalização. Como houve omissão do poder público durante décadas, captações sem a devida regularização foram se estabelecendo.

A demanda por água na bacia do Meia Ponte deve continuar aumentando, segundo o incremento populacional e o desenvolvimento da economia.

Os usos industrial, animal e de irrigação podem crescer até 235,6% até o ano de 2040, conforme o cenário mais expansivo do prognóstico elaborado pela Fundação de Apoio à Pesquisa da Universidade Federal de Goiás (Funape-UFG).

Na chamada Unidade de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos (UPGRH), que contempla 29 municípios, está um em cada três habitantes de Goiás. No mesmo estudo, que tem oito diferentes cenários, a previsão mais modesta projeta acréscimo de 39,5% até 2040.

Na última quarta-feira (31), a vazão no ponto de captação da Saneago, em Goiânia, tinha média de vazão de sete dias igual 13.941 l/s. A situação é ligeiramente confortável. O nível de atenção é equivalente ao escoamento igual ou menor que 12 mil l/s e é o primeiro sinal na escala de monitoramento do manancial. Em 2022, o índice foi atingido em 6 de junho.

Os níveis de segurança para o abastecimento público são seis: atenção, alerta e níveis críticos de 1 a 4.

Secretaria prevê estabilidade na bacia

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) desenvolveu um projeto-piloto de conservação e uso do solo em Ouro Verde. O objetivo é aumentar a disponibilidade hídrica na região.

A iniciativa teve parceria com a Secretaria de Agricultura, Saneago e prefeitura local. 
De acordo com a secretaria, foram contempladas propriedades rurais que estão localizadas a 2 km do ponto de captação que abastece o município de Ouro Verde. O manancial é um afluente do Rio Meia Ponte. “O objetivo principal desse projeto foi implantar terraceamento e barraginhas nas áreas de pastagens, diminuindo assim o transporte de sedimentos para os corpos hídricos e aumentando a infiltração de água no solo”, afirmou a Semad, por nota.

Ainda conforme a secretaria, outras atividades estão em andamento para preservar as reservas legais. Mudas de espécies nativas estão sendo plantadas em áreas onde a vegetação apresenta algum tipo de déficit.

Anápolis, município que recebeu reforço no abastecimento público recentemente, também recebeu capacitações de manejo de pastagens e construção de cercas. O objetivo, afirma a Semad, é “facilitar a difusão das técnicas utilizadas nas propriedades piloto para as demais áreas do entorno”.

O monitoramento da bacia hidrográfica do Meia Ponte tem recebido investimentos com novos equipamentos e tratamento de dados no Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), vinculado à secretaria.

A Semad informou  que o Meia Ponte terá o acompanhamento reforçado tanto para qualidade quan to disponibilidade de água.

Comentários
Os comentários publicados aqui não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade de seus autores.
ANUNCIE AQUI