Testemunha do caso Fábio Escobar foi morta com 5 cinco tiros, 1 deles na cabeça
Pedreiro de 31 anos foi um dos donos do celular usado na emboscada contra o empresário e morreu em uma abordagem da PM
Márcio Leijoto
12 de março de 2025 às 07:25
Modificado em 12/03/2025, 07:53

Arma que, segundo a PM, foi usada por Lucas Costa em abordagem (Divulgação)
Testemunha de defesa no processo judicial que trata do assassinato do empresário Fábio Alves Escobar Cavalcante, o pedreiro Lucas Costa Lopes Moreira, de 31 anos, foi morto com cinco tiros em uma abordagem policial, sendo dois na região entre o peito e o pescoço, de cima para baixo, um em cada braço e mais um que atingiu uma orelha, da direita para a esquerda, se alojando no crânio. O laudo cadavérico consta no inquérito entregue à Justiça pela corregedoria da Polícia Militar do Estado de Goiás (PM-GO). A ação policial se deu na zona rural de Niquelândia, perto da BR-414, no dia 28 de agosto de 2024, cerca de três meses antes do seu interrogatório sobre o caso Fábio Escobar.
Leia Também
O inquérito mostra que seis policiais militares participaram da ocorrência contra Lucas, mas informa que os disparos partiram das armas de apenas dois: o segundo sargento André Luiz Rios Amaral, que deu três tiros de uma pistola Beretta calibre 9 mm, e o terceiro sargento Danilo Rodrigues Simão, que deu dois de uma carabina calibre 5.56 mm. Já com Lucas, segundo o documento, teria sido encontrado um revólver Rossi calibre .32 com três cápsulas deflagradas. Em outubro, quando O POPULAR deu com exclusividade a informação sobre a morte do pedreiro, sua família contestou a versão policial e afirmou que ele estava indo de carona para Niquelândia visitar alguns parentes.
Lucas era uma peça importante no caso Fábio Escobar por ter sido um dos donos do celular usado para atrair o empresário, então com 38 anos, para a emboscada em que foi morto, no dia 23 de junho de 2021, em Anápolis. A forma como o aparelho saiu da mão de Lucas, passou pela de um traficante e da namorada deste até cair na dos policiais militares acusados pelo assassinato de Fábio é motivo de embate entre o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) e a defesa dos réus acusados de participação na morte do empresário e na de outras sete pessoas - estas para, segundo o MP-GO, acobertar o crime contra Fábio.
O laudo cadavérico identificou cinco ferimentos por tiros no corpo de Lucas: um no braço direito, um no braço esquerdo que, de tão forte, não foi possível identificar o local da entrada do projétil, um na região da clavícula, um no lado esquerdo inferior do peito e um quinto disparo na cabeça, na altura do ouvido direito. O documento aponta que os tiros que atingiram a região do peito tiveram uma inclinação no sentido superior/inferior, enquanto o disparo que acertou a vítima na cabeça foi no sentido direita/esquerda. Na conclusão do inquérito, a corregedoria afirma que não seria possível especificar a quantidade de tiros e nem aprofundar sobre o laudo.
Versão dos policiais
Os seis policiais militares envolvidos na abordagem afirmam que integravam na ocasião duas equipes com três integrantes cada do Batalhão Rural da PM-GO e faziam patrulha na região atrás de uma dupla envolvida em uma troca de tiros com outros policiais do mesmo batalhão na noite anterior. Na versão dos policiais, Lucas foi encontrado na mata sozinho e armado, tendo reagido à aproximação com disparos, o que motivou os policiais a atirarem de volta. Ainda na versão dos policiais, mesmo com o tiro na cabeça e os dois no peito, a vítima estava viva e foi levada por eles a um hospital municipal de Niquelândia, onde então morreu.
Os depoimentos dos investigados à corregedoria são idênticos, com as mesmas respostas dispostas na mesma sequência. Em todos, eles afirmam que seguiram o que determina o procedimento operacional padrão (POP) da corporação e que não saberiam informar qual a distância que estavam da vítima. Também argumentam que no local não havia sinal para o celular e, por isso, não foi possível acionar o socorro médico. No inquérito, não é informado se Lucas seria a pessoa envolvida na troca de tiros no dia anterior. Nem o laudo pericial na arma que seria da vítima e nem o registro da entrada dele no hospital foram anexados ao processo.
Interrogatórios
Lucas seria interrogado pela Justiça a pedido da defesa dos policiais militares que respondem pela morte de Fábio. O celular teria sido dado pelo pedreiro a um traficante em 28 de maio de 2021 em troca de drogas, e o traficante afirma que um dos policiais acusados pela execução do empresário pegou o aparelho dias depois, durante uma abordagem quando ele estava junto com a namorada em um quarto de hotel em Anápolis. A namorada, Bruna Vitória Rabelo Tavares, foi morta grávida em frente a uma distribuidora em agosto de 2021. Na sequência, no mesmo ano, outras seis pessoas ligadas ao casal foram mortas em abordagens policiais.
As investigações apontaram que Fábio foi executado a mando do ex-auxiliar do governo de Goiás Carlos César Savastano de Toledo, o Cacai, com quem passou a ter desavenças após as eleições estaduais em 2018. Segundo a denúncia, Cacai teve a ajuda do assessor parlamentar Jorge Caiado para encontrar quem topasse matar o empresário. O executor do crime teria sido o terceiro sargento Welton da Silva Vieiga, que se matou em janeiro de 2023, com a ajuda dos cabos Glauko Olívio de Oliveira e Thiago Marcelino Machado e do terceiro sargento Erick Pereira da Silva.
Todas as testemunhas e acusados já foram interrogados pela Justiça e agora os juízes do caso aguardam o resultado de uma nova perícia no celular do empresário para decidir se os acusados vão ou não para o júri.