Joelma abre sua história sobre violência doméstica: "Passei a temer pelos meus filhos"

Reprodução instagram @joelmaareal

A ex-vocalista da Banda Calypso, Joelma da Silva Mendes, abriu sua história à revista e Marie Claire e contou sua versão pouco conhecida, marcada por um drama comum entre as mulheres: a violência doméstica.

A violência doméstica no Brasil tem, entre suas marcas, algo identificado como transmissão geracional. O que significa que filhas de mulheres agredidas têm mais chances de repetir o sofrimento das mães.

A história de Joelma ajuda a endossar tal característica. Assim como a mãe, Maria de Nazaré, ela é uma sobrevivente da violência de gênero. O agressor, no seu caso, foi Cledivan Almeida Farias. Ex-marido, pai de Yasmin – hoje com 14 anos, sua terceira filha –, e ex-parceiro musical. Popularmente conhecido como Chimbinha. O mesmo guitarrista com quem formou a Banda Calypso, no ano 2000, juntos, venderam mais de 22 milhões de discos na atração paraense de maior sucesso da indústria da música. Segundo o Datafolha, em 2007 a banda Calypso foi, ao lado da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, a mais ouvida no país.

Nos palcos, uma parceria brilhante. Atrás deles, um marido que sob o efeito do álcool perdia o controle e descontava suas frustrações na companheira. “Ele reclamava que profissionalmente me respeitavam mais do que ele. Isso o deixava irado”, conta. Na primeira agressão, dois anos depois que se conheceram, ela passou três dias trancada em um quarto de hotel. “Sentiria muita vergonha se vissem meu rosto coberto por hematomas.”

Em entrevista concedida a revista Marie Claire, a cantora abre os detalhes de sua história com a violência doméstica. Um mal que atravessou a maior parte de seus dias desde a infância, mas que enfim, ela garante, teve trégua com o término de seu casamento, em 2015, quando conseguiu na Justiça o cumprimento de uma medida protetiva contra Chimbinha, fazendo com que ele não pudesse mais se aproximar fisicamente dela. “O medo coloca uma barreira na sua frente. E muitas vezes te prende na violência. Acontece que eu precisava ser feliz. Precisava escolher um lado. Escolhi a mim.” 
 
Quando e como conheceu o Chimbinha?

Tinha uns 23 anos. Já cantava na Banda Fazendo Arte, onde comecei a carreira, aos 19. Os amigos dele eram meus amigos, mas a gente não se conhecia. Até pensava que ele era um cara mais velho, que tinha um 40 e poucos anos. Porque quando as pessoas tocavam no nome dele, dava essa impressão. Ele era um músico conhecido no Pará. Gravava com vários artistas. Daí um desses amigos nos apresentou.

E se apaixonou logo de cara?

Não. Ele começou a fazer meu CD solo que virou o da Banda Calypso. Então a gente ficou muito tempo planejando aquele trabalho. Foi ali que nos apaixonamos. Depois, foram 18 anos trabalhando juntos e 18 de casados.

Como começaram as agressões?

Em dois anos de relação [2000]. Ele me bateu no rosto e fiquei com o olho inchado. Não sei te dizer nem porquê aquilo aconteceu. Na mesma hora falei que não queria mais. Me tranquei num quarto de hotel em Belém e fiquei três dias sem sair. Eu estava com medo e teria muita vergonha se vissem meu rosto coberto por hematomas.

Vocês já tinham filhos?

Eu já tinha Natalia e Yago, de outros relacionamentos. Yago era criança na época, tinha uns 4 ou 5 anos [Natalia, na época com 12 anos, é fruto de uma relação anterior de Joelma, com o motorista Luiz Alberto da Gana Sarraff]. Mais tarde eu e ele tivemos Yasmin. Nossa única filha.

O que te fez sair do quarto?

Ele prometeu que nunca mais faria aquilo. Que se eu desse uma chance, provaria. Era o que ele sempre dizia: que não repetiria a agressão. Parecia mesmo arrependido. Acreditei.

Ele cumpriu?

 Não. Aconteceu de novo, dois anos depois. Naquela tarde ele já estava bebendo havia uns dois dias, virado. Pedi pra alguém avisar que estava passando do limite. E essa pessoa foi chamá-lo. Estávamos numa casa em Recife, que tinha um segundo andar com uma varanda sem proteção, e lá embaixo havia um muro com umas armações de ferro. Ele veio transtornado porque eu tinha mandado chamá-lo e começou a bater a própria cabeça na parede. As pessoas escutaram e pensaram que ele estava batendo a minha cabeça na parede. Uma pessoa dizia pra outra: poxa, eu queria ir lá, mas estou com medo. Até que um cantor da banda foi. Quando ele chegou, [Chimbinha] pegou o meu cabelo, saiu me arrastando e ia me jogar lá embaixo, nos ferros. O cantor o impediu. Não sei o que aconteceria comigo. Se perderia minha vida, se ficaria aleijada.

O que você fez depois desse dia? Não teve medo de continuar com ele?

Tive e por isso comprei uma máquina de choque. Andava com ela na bolsa. Depois dela ele nunca mais bebeu perto de mim. Não cheguei a precisar usar a máquina com ele. 

Você sabe por que ele te agredia?

 Ele dizia que profissionalmente me respeitavam mais do que a ele. Isso deixava ele irado.

Ele reclamava de ciúmes, por exemplo?

 Não tinha isso. O problema era que ele não podia ser contrariado. Juntava a bebida a isso, e pronto.

O que aconteceu em 2015 para você decidir pôr fim à relação?

Descobri que ele estava havia quase três anos com outra mulher. E que nesse mesmo tempo, desviava dinheiro da nossa empresa. E, apesar dos episódios de agressão anteriores, eu não sentia desconfianças ou ciúmes, não era do tipo que olhava o celular do marido. Sabia a senha e não olhava. Então um dia mandaram uma mensagem pra mim: “Quer saber a verdade? Olha o celular dele”. E realmente, quando peguei o celular descobri que me traía. A partir daí, parei de sorrir. Decidi na hora que me separaria.

Como ele reagiu quando você disse que queria se separar?

Veio pra cima, querendo me bater. E aí pela primeira vez meu filho, Yago [que na época tinha 20 anos] se meteu, o agarrou e o jogou no chão. Graças a Deus que meu filho não fez nada com ele. Mas o menino ficou traumatizado com a cena, porque gostava muito do pai [Chimbinha é pai de criação de Yago]. Quando vi meu filho naquele estado, eu disse “não, acabou”. Porque sei o que passei quando criança.

Você não teve medo de pedir a separação?

Não. Meu medo era continuar naquele casamento. E, graças a esses históricos de agressão, consegui uma medida protetiva, uma distância mínima de cem metros.

Ela continua valendo? 

 Durante um ano não aconteceu nada e o juiz disse que não tinha porquê manter a medida e a retirou. Eu disse: “Olha, não confio”. Entrei com outro pedido. Estou aguardando agora. A Natalia, minha filha mais velha, também pediu a medida [a cantora não quis comentar, mas Natalia acusou Chimbinha de abuso sexual na adolescência e, em entrevistas, declarou que o guitarrista era violento com a mãe a ponto de ameaçá-la de morte].

Você o viu desde então?

Passado é passado. Não temos contato algum. Isso não é algo que eu deseje.

O que te deu força para decidir se separar?

Passei a temer pelos meus filhos. Pelas consequências que eles podiam ter por assistir à violência. Já estava cansada também e a história da traição foi como a última gota.

A separação profissional aconteceu no mesmo tempo da amorosa?

Foi. Não tinha condições de continuar a parceria musical. Parti para a carreira solo.

Naquela época, já conhecia a Lei Maria da Penha?

Tinha ouvido falar, a gente escuta né. E depois de passar pelo que passei, sabia que precisava dela.

Como vocês fazem quando ele vê os filhos?

Meus filhos vão até ele. Tento não me envolver. 

E sobre perdão? Mesmo não querendo contato, você o perdoou dentro de você?
Pois é, esse foi o segundo perdão mais difícil da minha vida. Fiquei três noites em claro, chorando de joelhos, pedindo pra Deus tirar o ódio de dentro de mim, que era muito forte. Não foi fácil. Não consegui logo. Mas quando consegui, foi como se tivesse me voltado o ar. 

Quanto tempo guardou a violência que sofreu só pra você?

Muitos anos. Na verdade, o tempo todo que ficamos casados. Eu vim falar só agora. Tinha vergonha demais. Nem ajuda procurei. Só pedia força a Deus. A verdade é que chegou um ponto em que a violência que vivia me deixou como um zumbi. Era visível que eu não era mais a mesma.

As pessoas que estavam ao seu redor sabiam que você estava sofrendo?

Claro que sabiam. Teve gente próxima que disse: segue sua vida, você merece muito mais que isso. Mas eu achava que ele ia melhorar. Achei até o último dia.

Ele chegou a tentar algum tratamento para parar de beber? Houve alguma conversa assim?

As conversas eram mais sobre ele beber menos. Mas na época a gente não pensava em tratamento. E também, teve um bom tempo em que ele ficou sem beber. Pelo menos perto de mim.

Você é famosa, e ainda trabalhava junto com o seu ex-marido. Por algum momento pensou duas vezes antes de colocar essa denúncia no mundo?

Demais. Mas acredito que com Deus posso tudo. Posso perdoar, superar. Posso apagar. E começar tudo de novo. Foi exatamente o que fiz. E veja, perdoar não é confiar, não é voltar. É tirar essa coisa ruim de dentro de você.

Você tem algum arrependimento dessa história toda?

Acho que de não ter terminado antes. E de não ter diminuído o ritmo de trabalho e focado mais na vida pessoal. Ele marcava todos os shows e eu tinha de ir. E eram muitos shows, quase todo dia. O objetivo dele parecia mais financeiro do que familiar.

O que você diria para mulheres que passaram ou estão passando por violência doméstica? 

Existe um certo medo, né? Não tem de ter medo. A mulher tem de falar sobre o assunto. E não pode naturalizar a agressão, não pode aceitar que é normal. Quando era criança, ia pra casa dos meus vizinhos e via que era diferente. Não tinha a violência que tinha na minha casa. Tinha é amor. E percebia que a minha casa era a exceção. A exceção ruim. É a mesma coisa com a mulher. Ela tem de saber que está vivendo a exceção ruim.

O que é amor para você?

Amor tem de ser simples. Tem de vir de admiração, cumplicidade, respeito, sem egoísmo, sem maldade.

E o tempo?

Ele vai colocando as coisas no lugar, fazendo você eliminar o que tem de ser eliminado e valorizar o que tem de ser valorizado. Lembra aquela garotinha passarinho, que subia em árvores? Quero ser ela hoje.

 

 

Reprodução instagram @joelmaareal
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