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PMs viram réus em caso de morte após abordagem filmada em Goiânia

Policiais foram denunciados pela morte de servente de 28 anos que foi colocado dentro de uma viatura por eles horas antes de ter sido executado

Modificado em 20/09/2024, 05:19

Os quatro policiais envolvidos na abordagem e morte de Henrique Alves Nogueira (na foto, no momento em que foi colocado na viatura) foram liberados para votar domingo (30)

Os quatro policiais envolvidos na abordagem e morte de Henrique Alves Nogueira (na foto, no momento em que foi colocado na viatura) foram liberados para votar domingo (30) (Reprodução)

Justiça tornou réus os quatro policiais militares acusados de matar o servente Henrique Alves Nogueira, de 28 anos, após uma abordagem no dia 11 de agosto. A vítima foi colocada pela manhã no camburão da viatura usada pelos acusados e de noite foi morta em um suposto confronto, que foi forjado segundo denúncia feita pelo Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO).

O caso ganhou repercussão nacional após aparecer um vídeo com o momento em que Henrique foi cercado pelos policiais. A família da vítima conseguiu acesso ao material antes que ele fosse destruído por homens que se identificaram como PMs e entraram no estabelecimento onde ficava a gravação.

Agora réus, o sargento Cleber Leandro Cardoso, de 37 anos, o cabo Guidion Ananias Galdino Bonfim, de 31, e os soldados Kilber Pedro Morais Martins, de 34, e Mayk da Silva Moura Sousa, de 29, estão detidos desde 16 de agosto.

A abordagem aconteceu por volta de 8 horas em uma avenida no Jardim Europa. Ele foi colocado na parte de trás da viatura e segundo testemunhas teria resistido. O corpo foi encontrado depois das 19 horas em um matagal no Residencial Real Conquista, a cerca de 15 km de onde foi abordado. Não se sabe ao certo se Henrique ficou todo o tempo com os policiais ou foi deixado em algum lugar antes.

Em sua decisão, o juiz Eduardo Pio Mascarenhas da Silva, da 1ª Vara Criminal dos Crimes Dolosos contra a Vida e Tribunal do Júri, citou como provas contra os policiais para justificar ter acatado a denúncia do MP-GO as imagens de câmera de segurança, o laudo de confronto microbalístico e o laudo pericial de vistoria em veículo em comparação com o perfil genético da vítima, que coincidiu na barra de algemas e da lateral da porta da parte traseira da viatura.

Henrique morreu ao ser atingido por quatro tiros na região do tórax e abdome, sendo um dos disparos de carabina, conforme laudo pericial. O trabalho dos peritos também apontou que a vítima estava ajoelhada no momento da execução e que foi ferida em local diverso ao de onde seu corpo foi encontrado. Esse ponto foi grifado pelo juiz em sua decisão.

O magistrado pediu que a Polícia Civil apure melhor as circunstâncias da detenção de Henrique por policiais que integrariam a equipe do Tático do 7º Batalhão da PM, o mesmo dos denunciados, e que teria ocorrido semanas antes do crime que resultou em sua morte. A vítima teria dito a uma pessoa que nesta ocasião que conseguiu escapar mesmo algemado e desde então estava sendo ameaçada.

Na mesma decisão, Eduardo Pio determinou que seja feita uma reprodução simulada dos fatos, para confrontar com a versão apresentada pelos policiais e pela Polícia Civil. E também pediu que a auditoria militar apure suposta prática dos crimes de fraude processual e falsidade ideológica, crimes considerados da esfera militar.

Defesa

Em depoimento, os policiais contaram que abordaram Henrique pela manhã e o colocaram dentro da viatura porque ele concordou em mostrar onde havia uma droga escondida enterrada. Em seguida, no local citado, o soltaram antes de procurar por causa da urgência de outra ocorrência de possível roubo a banco. Após descobrirem que se tratava de alarme falso, foram atrás de um suposto flagrante de tráfico no Real Conquista que descobriram ao mexer no celular de Henrique. O aparelho nunca foi localizado. Após monitoramento, teriam abordado Henrique na garupa de uma moto com a droga, e este reagiu atirando. A pessoa que estava na moto fugiu.

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Jovens são condenados pelo assassinato de Ariane Bárbara

Jeferson Cavalcante Rodrigues, Raissa Nunes Borges e outras duas pessoas conheceram Ariane em uma pista de skate, a convidaram para lanchar e depois mataram a vítima a facadas dentro do carro

Modificado em 19/09/2024, 01:07

Ariane Bárbara, à esquerda. À direita: Raissa, Freya (já julgada) e Jeferson.

Ariane Bárbara, à esquerda. À direita: Raissa, Freya (já julgada) e Jeferson. (Montagem/g1)

Os réus Raissa Nunes Borges e Jeferson Cavalcante Rodrigues foram condenados na noite desta terça-feira (29) pelo assassinato de Ariane Bárbara Laureano de Oliveira, de 18 anos. Raissa foi condenada a 15 anos de reclusão pelos crimes de homicídio qualificado por motivo torpe e uso de recurso que impediu a defesa da vítima, além da ocultação de cadáver. Jeferson foi condenado a 14 anos pelos mesmos crimes. Ambos foram absolvidos da acusação de corrupção de menores.

O julgamento ocorreu dois anos e seis dias depois do crime. Os condenados devem aguardar o trânsito do julgamento presos na Penitenciária Odenir Guimarães (POG). As defesas têm prazo de cinco dias para apresentarem recursos à sentença.

O advogado Luiz Carlos Ferreira Silva, que defende Jeferson Cavalcante Rodrigues, relatou após a decisão que deve recorrer da sentença por entender que a pena foi incompatível com a participação do jovem no crime, já que, segundo ele, Jeferson não desferiu golpes na vítima. "A defesa tinha esperança de uma sentença diferente. A pena ficou acima do patamar esperado e o que nos resta é recorrer da pena".

A defesa de Raissa também delclarou que vai contestar a sentença em relação ao tempo de pena, pois a ré confessou participação no crime desde que foi levada a uma delegacia.

Como consta na denúncia oferecida pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO), Raissa, Jeferson, Freya Jacomini, e uma menor conheceram a vítima em uma pista de skate pública, em Goiânia, e convidaram Ariane para lanchar. Depois, mediante violência física e golpes de faca, eles a mataram dentro de um carro.

Também amigo dos réus, Freya passou por júri popular em março deste ano e foi condenada a 15 anos de prisão por homicídio e ocultação de cadáver. A pena está sendo cumprida, inicialmente, em regime fechado na Penitenciária Odenir Guimarães (POG).

Raissa Nunes Borges foi acusada de tentar matar Ariane para testar se era psicopata ou não e Jefferson Cavalcante Nunes foi acusado por emprestar e dirigir o carro usado no crime. Ele teria também pagado algumas despesas como o lanche do grupo de réus, após a morte de Ariane.

Relembre o caso
De acordo com a denúncia do Ministério Público de Goiás (MPGO), Raissa, Jeferson e Freya atrairam a jovem dizendo que eles iam lanchar e depois, mediante violência física e golpes de faca, a mataram.

O crime aconteceu no dia 24 de agosto de 2021, por volta das 21 horas, no interior de um veículo. Narra a denúncia que, com o veículo em movimento, Raissa tentou estrangular Ariane, mas a força empregada não foi suficiente.

Ariane Bárbara, que tinha 18 anos, ficou sete dias desaparecida até ter o corpo encontrado em uma mata do Setor Jaó, em Goiânia. Na investigação, a polícia descobriu que os réus, Freya, e uma adolescente planejaram a morte, que seguiu uma espécie de ritual dentro do carro onde foi levada.

Segundo a polícia, o objetivo do crime era descobrir se Raissa Nunes Borges e uma menor, amigas da vítima, eram psicopatas. O suposto teste exigia observar a reação da pessoa testada após cometer um assassinato.

Ariane Bárbara foi escolhida pelos amigos por ser pequena e magra. Assim, se ela reagisse, os três conseguiriam segurá-la com mais facilidade, segundo a investigação policial. Após o crime, os acusados saíram para lanchar em um shopping. Raissa disse que Jeferson pagou o lanche.

Defesa
Durante o julgamento, Raissa confessou o crime e pediu perdão à mãe da vítima, Eliane Laureano. A ré começou o discurso contrariando as expectativas da própria defesa, a qual informou que Raissa permaneceria em silêncio.

A defesa dela, o advogado Luciano Oliveira Rezende, acrescentou que a ré agiu dessa forma graças ao poder de manipulação de uma menor envolvida no crime que tinha relações com pessoas perigosas e exercia poder sobre os amigos.

"A Raissa foi usada e tentou inúmeras vezes sair da situação. Mas a menor manipuladora não deixava", disse o advogado. Ele exibiu também um áudio retirado do celular da acusada, no qual a menor faz ameaças de morte a um homem. "Você não está ligado nos meus contatos. Você é um homem morto", disse a menor.

Jefferson também narrou uma versão dos fatos em que a menor foi responsável por obrigá-lo a participar do crime, por meio de ameaças, e como ele tem uma saúde mental frágil e problemas psicológicos, acabou se envolvendo. A defesa, o advogado Luiz Carlos Ferreira Silva, reconheceu a participação do defendido no crime e apresentou um laudo feito pela junta médica.

O advogado leu trechos citados pelas psicólogas relatando que o acusado sofria depressão e tentou se matar em mais de uma ocasião. "Ele relatou também que quis se matar duas vezes e sua gata de estimação, chamada de Shiva o impediu. Depositou em choro, precisou ser contido e não conseguiu falar", leu o advogado em trecho do laudo.

Ferreira mostrou também um trecho de reportagem exibida na época do crime em que um delegado que investigava o caso disse que as acusadas do crime falaram informalmente que poderiam matar Jeferson, com medo dele contar sobre a morte de Ariane para outras pessoas. O advogado ressaltou em vários momentos o temor que Jefferson sentia pela menor.

Acusação
O promotor Leandro Henrique Zeidan Vilela de Araújo direcionou sua fala a Raissa, agradecendo a confissão feita no interrogatório. "Eu posso te agradecer pela confissão que você fez, esse era o mínimo que você devia à sociedade goiana e à mãe da Ariane. Isso foi de grande valia",afirmou.

O promotor também relembrou o sonho que Ariane tinha de se tornar veterinária, que jamais poderá ser alcançado. Ele reforçou acreditar na culpa dos réus e usou as palavras "justificar o injustificável" para se referir ao discurso das defesas

O promotor Maurício Gonçalves apresentou um trecho do laudo de sanidade mental de Jeferson Cavalcante analisado pela junta médica com a informação de que ele possuía plena capacidade de entendimento para cometer o crime.

Versão dos réus
Raissa narrou que no dia do crime ela e a menor suspeita de participação no crime estavam sentadas ao lado de Ariane, enquanto Jeferson dirigia e Freya estava no banco da frente do carro. Quando uma música escolhida para o crime começou a tocar, ela teria enforcado Ariane.

A ré informou ainda que acreditou não estar agradando a menor com a maneira que agiu para praticar o crime, então trocou de lugar com Freya. Depois, a menor teria pedido que ela retornasse e esfaqueasse a vítima, assim deu a primeira facada em Ariane.

Para finalizar, a acusada e a menor teriam jogado Ariane no porta-malas, ainda com o carro em movimento. O celular da vítima foi destruído pela mais nova e jogado pela janela, segundo Raissa.

Já o outro réu, Jeferson Cavalcante Rodrigues, relatou ter participado do crime por medo e que sua família estava sendo ameaçada. Ele afirmou que a menor envolvida fazia ameaças aos pais dele dias antes da morte de Ariane.

Ele declarou ainda que a menor o obrigou a dar um sinal para o crime, um estalar de dedos, gesto que seria seguido pela música escolhida para os ataques. O réu acrescentou ainda que sentiu empurrões, dentro do carro usado no crime, para fazer a ação combinada.

Jefferson disse ao juiz que tem depressão e que precisa tomar medicamentos duas vezes ao dia, entre esses medicamentos está um estabilizador de humor.

Mãe se emociona
No período da manhã, o júri ouviu testemunhas da acusação e uma delas foi, Eliane Laureano, mãe de Ariane, que se emocionou ao lembrar do momento em que não tinha informações sobre o paradeiro da filha.

"Busquei minha filha em todos os lugares, fui no IML, nos hospitais e o que mais me dói é saber que todos eles sabiam onde ela estava", disse emocionada. Eliane relembrou também a última mensagem enviada pela filha, informando que ia sair com amigos para lanchar.

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Justiça prorroga prisão de policiais filmados colocando homem em viatura

PMs são suspeitos de terem matado homem de 28 anos após aborda-lo desarmado e fraudarem local onde o corpo foi encontrado para simular um falso confronto. Imagens mostram vítima sendo colocada em veículo horas antes no mesmo dia

Modificado em 20/09/2024, 03:13

Câmeras de segurança registraram momento em que homem é levado por policiais

Câmeras de segurança registraram momento em que homem é levado por policiais (Reprodução)

A Justiça prorrogou por mais 30 dias a prisão temporária dos quatro policiais militares investigados pela morte do servente Henrique Alves Nogueira, aos 28 anos, após uma abordagem no dia 11 de agosto. O sargento Cleber Leandro Cardoso, de 37 anos, o cabo Guidion Ananias Galdino Bonfim, de 31, e os soldados Kilber Pedro Morais Martins, de 34 e Maik da Silva Moura Sousa, de 29, estão detidos desde o dia 16 de agosto.

A morte de Henrique era para passar despercebida, como mais um caso de suspeito que reagiu a uma ação policial, conforme versão oficial apresentada pelos agentes envolvidos. Os policiais contaram que ele estava na noite daquele dia na garupa de uma moto com uma mochila com drogas e reagiu a tiros à abordagem no Setor Real Conquista.

Entretanto, a família dele encontrou imagens de câmera de segurança mostrando o servente sendo abordado cerca de 12 horas antes e a 14 quilômetros do local onde o corpo foi encontrado pelos mesmos policiais, sem mochila nem arma, e sendo colocado dentro da viatura. A partir de então, o caso ganhou repercussão nacional e a Polícia Civil abriu investigação.

A Polícia Civil pediu a prorrogação da prisão por necessitar de mais tempo para concluir o inquérito e alegando que a soltura deles representaria risco para a investigação. O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) corroborou o pedido.

O juiz Eduardo Pio Mascarenhas da Silva, da 1ª Vara Criminal dos Crimes Dolosos contra a Vida e Tribunal de Júri, concordou com a solicitação, afirmando que pelas provas até agora colhidas "vislumbra-se que o crime praticado tem forte aparência de homicídio doloso, ou seja, configura infração grave".

"A imprescindibilidade da medida respalda-se no fato de que a cautelar é fundamental para as investigações em curso, e trata-se de caso complexo, envolvendo quatro suspeitos, que são policiais militares, e, conforme indicado pelo promotor, faz-se necessária a segregação dos representados uma vez que restam diligências investigativas a serem implementadas visando possibilitar a coleta de provas e esclarecimento dos fatos", afirmou o magistrado.

Em sua decisão, o juiz diz que a periculosidade dos investigados se dá pela suspeita de como o crime se deu associado a uma possível fraude processual quando os policiais registraram a ocorrência com a alegação do falso confronto. "São policiais militares e tem fácil acesso as provas e tentaram, inclusive, apagar as filmagens da abordagem policial que culminou na morta da vítima, conforme depoimento da (testemunha) sigilosa 02", escreveu em sua sentença.

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PMs suspeitos pelo assassinato de servente que entrou em viatura estão envolvidos em 15 mortes

Mais um processo foi encaminhado à Justiça citando um dos quatro policiais presos pela morte de Henrique Nogueira. Caso ocorreu em março em uma estrada vicinal em Abadia, à noite e sem testemunhas.

Modificado em 20/09/2024, 03:50

Quatro policiais militares foram presos em agosto pela morte de Henrique Alves Nogueira

Quatro policiais militares foram presos em agosto pela morte de Henrique Alves Nogueira (Reprodução)

Subiu para 15 o número de pessoas mortas em abordagens realizadas por ao menos um dos quatro policiais militares envolvidos na morte do servente Henrique Alves Nogueira, aos 28 anos, no dia 11 de agosto. Desta vez, o caso envolve um homem não-identificado que teria trocado tiros com uma equipe da PM em uma estrada vicinal na zona rural de Abadia de Goiás, na noite do dia 13 de março, um domingo. O inquérito da Corregedoria da Polícia Militar foi encaminhado para a Justiça comum nesta segunda-feira (29).

A morte de Henrique ganhou repercussão nacional após a família dele ter descoberto um vídeo mostrando que, horas antes de uma equipe do 7º Batalhão da Polícia Militar (7º BPM) ter informado sobre um suposto confronto com a vítima, o servente foi abordado pelos mesmos policiais em uma avenida a cerca de 15 quilômetros do local onde o corpo estava.

As imagens contradizem a versão oficial dos policiais, de que ele estava na garupa de uma moto no Setor Real Conquista com uma mochila cheia de drogas e que reagiu à abordagem atirando contra os agentes após cair do veículo em fuga. Foram presos na ocasião o sargento Cleber Leandro Cardoso, de 37 anos, o cabo Guidion Ananias Galdino Bonfim, de 31, e os soldados Kilber Pedro Morais Martins, de 34, e Maik da Silva Moura Sousa, de 29.

O processo que chegou ao Judiciário nesta segunda, do caso em Abadia, cita o nome de Guidion junto com outros dois policiais militares que não envolvidos na morte de Henrique. Segundo relato oficial, a equipe estava em patrulhamento pela GO-469, na altura de Abadia, quando desconfiaram de dois homens em um veículo HB20. Na abordagem, feita por meio de sinalização, os suspeitos não pararam, e deu-se início a uma perseguição.

Ainda conforme os policiais, os suspeitos entraram em uma estrada vicinal e após o carro parar saíram do mesmo efetuando disparos contra os agentes de segurança, que teriam revidado. Um dos homens supostamente em fuga conseguiu fugir. O outro morreu no matagal após ser atingido por três tiros frontais, sendo um na cabeça e dois no peito.

Local não foi preservado

O local da ocorrência não foi preservado pelos policiais sob alegação de que pretendiam socorrer o suspeito, levando-o até uma unidade de saúde em Abadia. Os policiais atiraram 11 vezes, enquanto o suspeito, de acordo com a versão oficial, teria efetuado três disparos de um revólver calibre 38 apreendido com ele após a morte.

O inquérito informa que a pessoa foi enterrada em um cemitério de Aparecida sem identificação e que material genético foi encaminhado para o bando de dados da Polícia Técnico-Científica.

No relatório encaminhado à Justiça também consta que o HB20 teria sido furtado em Goiânia, mas não consta no processo informações sobre o furto.

A corregedoria da PM concluiu que se trata de um caso de legítima defesa por parte dos policiais. O processo consta apenas as perícias nas armas, o exame cadavérico, e os depoimentos dos policiais. Com o caso indo para a Justiça comum, tem sido costume o processo se apensado ao trabalho que é feito pela Polícia Civil ou arquivado.

Promotores do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) têm reclamado constantemente quando a PM investiga casos envolvendo mortes em abordagens, afirmando que não é da competência da corporação este tipo de procedimento.

Caso Henrique

Dos quatro policiais presos preventivamente pela morte do servente em agosto, Guidion é quem tem o nome citado em mais processos envolvendo investigação por homicídio. Dos 14 autos identificados na Justiça, ele aparece em 9. Já Cleber e Kilber aparecem em 6 e Mayk em 3.

A investigação sobre a morte de Henrique segue em andamento na Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH).

Quatro policiais militares foram presos em agosto pela morte de Henrique Alves Nogueira

Quatro policiais militares foram presos em agosto pela morte de Henrique Alves Nogueira (Reprodução)

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Gravação original que mostra abordagem da PM foi apagada

Testemunha contou que, minutos antes de equipamento ser danificado por dois homens que disseram ser policiais militares, fez uma cópia do vídeo com o momento em que Henrique Alves Nogueira é cercado e colocado em viatura. Henrique foi morto horas depois. Cópia foi entregue na delegacia no mesmo dia

Modificado em 20/09/2024, 03:51

Momento em que Henrique Nogueira é colocado dentro de viatura: vizinhos ouviram gritos de socorro

Momento em que Henrique Nogueira é colocado dentro de viatura: vizinhos ouviram gritos de socorro (Reprodução)

As imagens da câmera de segurança que gravou o momento em que o servente Henrique Alves Nogueira, de 28 anos, foi abordado por policiais militares e colocado dentro de uma viatura por policiais militares e colocado dentro de uma viatura foram apagadas e o equipamento danificado por dois homens que se identificaram como da própria PM. Eles foram ao local onde estava armazenada a filmagem 15 minutos após a esposa de Henrique sair de lá.

As informações constam em depoimento prestado por uma testemunha sigilosa no processo que tramita na Justiça pela morte do servente na quinta-feira (11).

Na versão oficial, os quatro militares afirmam que ele estava na garupa de uma moto no Setor Real Conquista e que reagiu à abordagem atirando contra os agentes após cair do veículo em fuga. Porém, na manhã seguinte, a esposa de Henrique, ainda sem saber de sua morte, encontrou as imagens.

Henrique foi abordado por volta de 8h25 na Avenida Itália, no Jardim Europa, por uma equipe do grupo Tático do 7º Batalhão da Polícia Militar (7º BPM) formada pelo sargento Cleber Leandro Cardoso, de 37 anos, o cabo Guidion Ananias Galdino Bonfim, de 31, e o soldado Kilber Pedro Morais Martins, de 34. Já o suposto confronto alegado na versão oficial dos PMS contou com a inclusão do soldado Mayk da Silva Moura Sousa, de 29, que entrou na equipe às 18 horas.

Assim que a mulher de Henrique deixou o local onde viu o vídeo, na manhã do dia 12, a testemunha sigilosa conta que gravou uma cópia da filmagem e logo em seguida apareceram os homens se dizendo policiais. Eles ficaram no local entre meio-dia e 14 horas e depois que saíram esta testemunha percebeu que o equipamento não gravava mais as imagens captadas pela câmera. Um técnico foi chamado e disse que o aparelho foi danificado e as imagens anteriores apagadas. A cópia foi entregue à Polícia Civil.

Ainda segundo esta pessoa, no dia anterior, entre o momento da abordagem e em que o corpo foi encontrado, dois homens também se dizendo policiais, foram ao local observar as imagens, mas não danificaram o aparelho nem mexeram no vídeo. No depoimento, consta a informação que nenhum dos homens que visitaram o local foram reconhecidos com um dos quatro envolvidos na morte de Henrique.

Esta testemunha, cuja identidade não foi revelada no processo por questão de segurança, também disse que vizinhos do lugar onde Henrique foi abordado contaram terem visto ele gritando para que populares em volta impedissem os policiais de colocá-lo dentro da viatura. O servente havia deixado o carro em uma oficina próxima e foi parado pela equipe do tático alguns metros depois.

Trajeto com paradas
No processo, ao qual o DAQUI teve acesso, constam as coordenadas de latitude e longitude do trajeto feito pela viatura durante o dia 11 de agosto, mostrando que é a mesma que esteve na Avenida Itália, no Jardim Europa, onde Henrique foi abordado, e no terreno no Real Conquista onde o corpo dele foi encontrado.

Na descrição da rota, é possível identificar também que, meia hora após a abordagem, os policiais estiveram com a viatura em um terreno próximo ao córrego Macambira, no Setor Faiçalville, e depois, já no fim da tarde, ficaram por quase duas horas em uma rua no Setor Cristina, na divisa com um descampado entre o bairro e o Real Conquista.
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O local próximo ao córrego fica cerca de 3,7 km de onde o servente foi abordado e os policiais chegaram lá 6 minutos após deixarem a Avenida Itália.

Já o ponto identificado no relatório com os dados de GPS da viatura como sendo um local onde eles ficaram por quase duas horas está a cerca de 3,8 quilômetros de onde o corpo foi encontrado. Por volta das 19h30, a viatura sai deste local, no Setor Cristina, passando pelo Real Conquista por alguns minutos até parar onde o corpo de Henrique foi encontrado.

Causa da morte
O laudo cadavérico feito pelo Instituto Médico Legal (IML) aponta que Henrique foi atingido por 4 dos 15 tiros efetuados pelos policiais militares, sendo dois no peito e dois no abdome, e que ele foi ferido no coração, no fígado e no rim, causando um "sangramento volumoso e consequente choque hemorrágico".

No processo não há informações sobre o horário em que Henrique pode ter sido morto.

No registro feito pelos policiais investigados sobre o suposto confronto, quando ainda não se sabia do vídeo, eles afirmaram que Henrique estava armado com um revólver calibre 32, com três cápsulas deflagradas e que portava uma mochila cheia de drogas. Porém, antes de entrar na viatura, o servente aparece nas imagens sendo revistado e estaria desarmado e não carregava nada.

A reportagem procurou o delegado André Veloso, adjunto da Delegacia de Investigação de Homicídios (DIH) e responsável pelo caso, mas ele informou que não iria comentar sobre a investigação até a conclusão.

O DAQUI mostrou que os quatro policiais investigados foram citados em 12 processos que chegaram na Justiça estadual envolvendo ações que resultaram em 13 mortes. Metade destes casos já foi arquivada. A defesa dos policiais não foi localizada pela reportagem.