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Moradores reclamam de abandono do Castelinho no Lago das Rosas, em Goiânia

Wildes Barbosa
Prédio entregue à degradação: lixo, urina e fezes não inibem a presença de usuários de drogas

Com a aproximação dos 90 anos de Goiânia volta à tona um histórico questionamento que envolve um dos espaços mais icônicos da capital. Por qual razão o Castelinho, prédio construído no final da década de 1950, dentro do então Balneário Lago das Rosas, hoje parque, tem sido a maior parte de sua existência relegado ao abandono? A Associação dos Moradores e Frequentadores do Lago das Rosas (Alagro) tem percorrido gabinetes de autoridades pedido apoio para que o local seja transformado em espaço multiuso.

O Castelinho, desde seu surgimento, tornou-se ponto de encontro da juventude que realizava ali atos políticos e manifestações culturais. Foi a sede da União Goiana de Estudantes Secundaristas (Uges) de 1959 até 1964, quando o golpe militar provocou a dissolução da entidade. O poder público retomou o imóvel quatro anos depois, mas voltou às mãos da Uges em 1993. No início dos anos 2000 um bar funcionou no local, mas autoridades disseram que drogas eram comercializadas no local. A entidade, sem condições de fazer a manutenção e a vigilância, abandonou o local que foi invadido por pessoas em situação de rua.

Em 2010, os estudantes voltaram a ocupar o Castelinho, porém a Prefeitura de Goiânia conseguiu manter o prédio sob seu domínio. Naquele momento, a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) tinha acabado de realizar uma reforma do espaço, com a parceria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Castelinho não é tombado pelo órgão, mas de sua área é possível observar dois monumentos em art déco que integram o conjunto de bens tombados de Goiânia, o trampolim do Lago das Rosas, e a mureta de proteção do parque, ambos construídos entre 1940 e 1942.

Ex-presidente da Uges, o historiador e professor Paulo Winicius Teixeira de Paula, o Maskote, considera o prédio um patrimônio histórico dos estudantes. “A prefeitura assumiu o espaço como seu, mas entendo que é totalmente equivocado”. Maskote admite, entretanto, que o local está degradado e  ninguém quer assumir a preservação do “patrimônio”.

Sob a responsabilidade da administração municipal, o Castelinho continuou entregue ao abandono. O mau cheiro nas suas proximidades é nauseante. Lá dentro, muito lixo, urina e fezes, o que não impede que usuários de drogas e pessoas sem moradia façam dali um lugar para se recolher. Responsável pelo espaço, a Agência Municipal do Meio Ambiente, gestora dos parques de Goiânia, confirmou ao POPULAR que o prédio será recuperado e entregue à Secretaria Municipal de Cultura (Secult) que ficará responsável pelo desenvolvimento de atividades no espaço.

Superintendente de Gestão Ambiental e Licenciamento da Amma, Ormando Pires explica que a pasta vai assumir a revitalização do prédio, mas não tem finalidade para ele, por isso a Secult ficará responsável pelo local. Segundo Ormando, o Castelinho é um bem do Município e qualquer órgão pode assumi-lo, a exemplo da Vila Ambiental, no Parque Areião, onde várias atividades educativas são realizadas, tanto pela Amma quanto por outras pastas municipais e parceiros, como Ongs e Universidade Federal de Goiás (UFG).

O titular da Secult, Zander Fábio, não antecipou quais são os planos da pasta para o Castelinho. Em nota, ele informou que assim que receber o prédio da Amma, “vai cuidar da parte de projetos e ações culturais para o local”. Ormando Pires enfatizou que a Amma vai “lavar, limpar e pintar as paredes para que o prédio fique com aspecto de uso”, mas lembrou que “é preciso atividade diária” para evitar novas invasões.

Projeto da Alagro prevê um espaço multiuso 

A notícia da “reforma” do Castelinho não agradou a Alagro. Sua presidente, a médica patologista Maria Helena Tavares Vilela, vem peregrinando gabinetes na tentativa de sensibilizar gestores e políticos para a importância de uma completa restauração do espaço. Nas visitas ela apresenta um projeto elaborado, sem custos, pelos arquitetos Marcílio Lemos e Fabiana Feldner, ambos moradores das imediações do Lago das Rosas, no qual são previstas não apenas a reforma de toda a área, mas troca de instalações elétrica e hidráulica, de piso, fechamento da varanda e do salão com esquadrias, construção de rampa acessível, reforma e abertura dos banheiros para a área externa, etc. 

“A nossa ideia é transformar o Castelinho num espaço multiuso, que pode ser usado para aulas de yoga, meditação, ginástica e apresentações. Nada será descaracterizado. Temos de colocar na cabeça dos gestores que a população precisa de lugares para espairecer, para conversar, para se exercitar para que tenha menos doença física e mental. Isso é qualidade de vida. O Castelinho é rodeado de patrimônio histórico. É um cenário muito rico para ficar desse jeito, abandonado”, afirma Maria Helena. 

A Alagro chegou a pensar na possibilidade de assumir o espaço, mas desistiu por causa da burocracia. A Amma não se opôs e as partes chegaram a assinar um termo. “Achávamos que era só conseguir patrocinadores e conseguiríamos arrumar o Castelinho em um lugar de bom uso, só que a burocracia é muito grande e não teríamos condições de abarcar com vigilância 24 horas”, explica a presidente da Alagro. A entidade desfez o acordo e apresentou mais tarde o projeto de restauração. “Se for feita somente uma limpeza e não fechar, o Castelinho vai continuar o mesmo antro de drogados e sem uso pela população”, acredita Maria Helena.companhada do deputado estadual Mauro Rubem (PT), também morador da região, a presidente da Alagro apresentou o projeto ao superintendente regional do Iphan, Pedro Wilson; ao presidente da Amma, Luan Alves; ao titular da Secult, Zander Fábio e ao secretário de Governo da capital, Jovair Arantes. Em agosto, a Gerência de Projetos, Arquitetura e Engenharia Ambiental da Amma enviou ofício à Alagro em resposta ao pedido de reforma do Castelinho e informou que “acatando o projeto arquitetônico e modificações sugeridas pela Associação interessada, foi realizado o levantamento das frentes de serviços necessárias para tal reforma”.

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