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Pediatras são raros em Goiânia e no interior de Goiás

Secretaria estadual afirma que demanda no Hospital da Criança e do Adolescente (Hecad) é aumentada diante da situação. Remuneração e condições de trabalho são queixas

Modificado em 20/09/2024, 06:19

Mônica Ribeiro Costa, diretora-geral do Hecad

Mônica Ribeiro Costa, diretora-geral do Hecad
 (Diomício Gomes)

Localizado em Goiânia, o Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad), vinculado à Secretaria Estadual de Saúde (SES), nasceu para suprir a carência de um serviço específico voltado a este público. Desde a inauguração oficial, em fevereiro deste ano, a unidade, que tem portas abertas, vem recebendo alta demanda, expondo uma realidade de carência de médicos pediatras no serviço público, na capital e no interior, o que não necessariamente significa que faltam profissionais especialistas no mercado.

Na semana passada, o principal articulador para a criação do Hecad, o deputado federal Zacharias Calil (União Brasil), lamentou, junto ao governador Ronaldo Caiado, a distorção da proposta original de funcionamento da unidade. "A missão do Hecad é ser um hospital para casos de média e alta complexidade. Há uma grande falha porque pacientes que deveriam ser atendidos em unidades básicas estão sendo encaminhados para lá. Os profissionais do Hecad estão sobrecarregados", disse ele.

Segundo o parlamentar, que é cirurgião pediátrico e integra o corpo clínico do Hecad, com a criação do hospital, ficou "cômodo" para a Prefeitura de Goiânia, que "não precisa mais contratar pediatras". Em quase um ano de funcionamento, o maior número de pacientes da unidade é da capital. O Hecad começou a operar em 15 de janeiro, absorvendo a demanda antes concentrada no então Hospital Estadual Materno-Infantil Dr. Jurandir do Nascimento (HMI), hoje Hospital Estadual da Mulher (Hemu), dedicado exclusivamente a atendimentos de obstetrícia e neonatologia.

"O Hecad nasceu para oferecer atendimento complexo, como cirurgias cardíacas pediátricas, neurocirurgias, atenção a fissurados, etc. Isso não está sendo respeitado. O hospital será transformado numa unidade de pronto atendimento?", questiona Zacharias Calil. O parlamentar disse que vem recebendo documentos e tem acesso a grupos de mensagens de colegas que relatam o encaminhamento para o Hecad de pacientes com patologias simples, que poderiam ser atendidos nas unidades básicas. "Todos precisam de atendimento, mas num serviço complexo, tomam vagas de outros em pior situação e consomem orçamento."

Com 116 leitos de enfermaria e 30 na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o Hecad foi instalado no antigo Hospital do Servidor, que pertencia ao Instituto de Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo). O Governo de Goiás, por meio da SES, adquiriu o prédio no fim de 2021 pagando quase R$ 129 milhões. Administrado pela Organização Social (OS) Associação de Gestão, Inovação e Resultados em Saúde (Agir), o Hecad conta com 282 médicos, 74 deles no Pronto Socorro.

O Pronto Socorro do Hecad nunca fecha. Todos os dias da semana, durante 24 horas, atende pacientes. Desde a inauguração oficial até outubro passaram por lá 40.848 crianças e adolescentes. "E isso por demanda espontânea. Mais de 50% dos casos são classificados como verde e azul", afirma a diretora-geral da unidade, Mônica Ribeiro Costa, ao mencionar os atendimentos de baixa complexidade, que são de responsabilidade dos serviços municipais de saúde.

6 perguntas para Mônica Ribeiro Costa, diretora-geral do Hecad

O Hecad está sobrecarregado?
Sim. Como trabalhamos com as portas abertas, temos recebido um número grande de crianças classificadas como verdes e azuis, que poderiam ser atendidas em unidades básicas. Estamos utilizando um serviço que seria de referência em situações complexas para atender casos menos urgentes, o que poderia ser feito em unidades básicas e secundárias nos municípios. Hoje, 70% dos pacientes são da região metropolitana de Goiânia.

O hospital tem capacidade para essa demanda?
Não há espaço físico para aumentar o número de pediatras no Pronto Socorro do Hecad. Estamos atendendo 24 horas por dia com os profissionais que eu planejei, 74 no Pronto Socorro. Só que a demanda é excessiva. A família não quer saber se o atendimento é verde ou azul. Ela precisa de atenção ou orientação e vai procurar onde encontra. Cabe ao poder público prover essas possibilidades. Os municípios deveriam oferecer os serviços de atenção primária e secundária, nas unidades básicas e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), e nós nos dedicaríamos ao que realmente foi proposto para o Hecad.

Há prejuízo no atendimento de casos mais complexos?
Não estamos deixando de fazer o nosso papel, mas poderíamos fazer de uma forma menos pressionada, sofrida, se nossa porta estivesse atendendo pacientes com perfil mais adequado. Estamos fazendo cirurgias de grande porte e eletivas, uma grande demanda da rede. A nossa taxa de ocupação de leitos, tanto de enfermaria quanto de UTI, fica sempre acima de 95%. É muito alta. Os leitos são para servir a comunidade e internar pacientes. Se vamos internar casos menos ou mais complexos, vai depender do número de leitos que outras unidades, básicas e secundárias, de responsabilidade das prefeituras, oferecem.

Faltam pediatras no mercado?
Tem pediatras, mas a demanda é muito grande. Uma criança precisa sempre de atenção médica. Dificilmente ela passa a primeira infância sem a necessidade de um atendimento de urgência ou de rotina. E agora estamos enfrentando o problema da baixa cobertura vacinal. A pediatria é uma área de grande demanda e por muito tempo os profissionais não foram valorizados como deveriam. Nas últimas décadas cresceu muito o atendimento em neonatologia e grande parte deles vai para esta especialidade e não para a pediatria geral.

Como foi formada a equipe do Hecad?
No início, tivemos dificuldade. Às vezes é complicado manter um profissional no hospital porque a oferta de trabalho para ele é grande. O Hecad é o melhor lugar para trabalhar, mas a questão da alta demanda do Pronto Socorro estressa o médico. Pacientes e familiares ficam impacientes por causa da demora.

O Hecad pode mudar essa realidade?
Precisamos aumentar a oferta de profissionais. A partir do ano que vem o Hecad vai iniciar a própria residência de pediatria, outro dos seus papéis que será efetivado. O programa já está aprovado pelo Ministério da Educação. Vamos oferecer 15 vagas para residentes de pediatria, cinco de UTI e dois em gastropediatria. Com isso vamos aumentar a oferta de profissionais para a rede.

'Não faltam pediatras', diz presidente da SGP

Presidente da Sociedade Goiana de Pediatria (SGP) e conselheira do Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego), Valéria Granieri não concorda que haja carência de pediatras no mercado, embora estejam atendendo como subespecialistas. Em Goiás, segundo dados do Cremego, há atualmente 1.232 profissionais registrados. Alguns pagam dois Conselhos, de Goiás e do Distrito Federal, pela melhor remuneração.

"Na rede pública eles são desestimulados a trabalhar por causa das condições oferecidas. Sem plano de carreira, com salário baixo e as precárias condições de trabalho, migram para a rede particular." Para a médica, outro aspecto desencoraja o movimento de pediatras rumo à rede pública. "A pjotização da medicina é muito grave", afirma Valéria Granieri, sobre os contratos de profissionais como Pessoa Jurídica pelas OSs que administram hospitais públicos. "O médico não tem direito a férias, 13º salário e licença maternidade e a maioria dos pediatras é formada por mulheres. Muitas vezes ele fica sozinho na unidade e trabalha com medo pela insegurança do local."

A presidente da SGP lembra que além da seleção para residência de pediatria no Hecad, outras estão abertas, como na Universidade Federal de Goiás, no Hospital e Maternidade Dona Iris (HMDI) e na Universidade de Rio Verde (UniRV). "Nós formamos muitos pediatras", diz Valéria Granieri, que nunca atuou no serviço público pelas condições oferecidas. As subespecialidades, como neonatologia, infectopediatra, pneumopediatria e hebiatria (médico que cuida de adolescentes) são algumas das opções que afastam os profissionais da pediatria em geral.

Sobre a ausência de pediatras em municípios do interior, a presidente da SGP explica que não é somente o salário oferecido que fixa o profissional na cidade. "Tem muito a ver com as condições de trabalho. Trabalhar no interior é diferente porque às vezes o médico é o único pediatra, não pode sair e nem sempre tem como encaminhar o paciente para outra unidade. Muitos profissionais relatam que o salário que recebiam era bom, mas não tinham vida. Eles têm a responsabilidade de fazer tudo, desde a emergência à sala de parto. O dinheiro não é o mais importante."

Para Paulo Tadeu Falanghe, que integra a Diretoria de Defesa da Pediatria, da Sociedade Brasileira de Pediatria, a ausência de um plano de carreira não fixa especialista no serviço público onde ele passa a trabalhar como "atendente de problema", em consequência de uma assistência deficitária. Na rede suplementar, a questão é a defasagem dos honorários. "Sua remuneração limita-se, em geral, ao valor pago pelas consultas e não contempla a atividade em consultório e a disponibilidade que precisa despender fora do experiente para sanar dúvidas de pais ou responsáveis. Por isso muitos buscam por subespecialidades, se afastando da pediatria em geral."

Salário para profissional chega a R$ 50 mil em Chapadão do Céu

Verônica Savatin, presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de Goiás (Cosems-GO), relata que, de todas as especialidades, o pediatra é o mais difícil de contratar no interior, mesmo pagando salários altos. "Em Chapadão do Céu, onde sou secretária, fiquei seis meses sem pediatra, mesmo oferecendo um salário de R$ 50 mil. Tive de trazer uma profissional do Acre. Pago R$ 70 mil para um cirurgião vir para o interior. Somos reféns da categoria médica", afirma a presidente do Cosems-GO. Ela concorda que o acúmulo de trabalho pode ser um dos motivos. "Dificilmente um clínico geral atende crianças. Ele sempre encaminha para o pediatra."

Sobre a sobrecarga do Hecad, Verônica Savatin diz que já solicitou à SES um levantamento em relação à demanda da unidade para saber a origem dos pacientes. "Os pacientes de Goiânia são atendidos prioritariamente e, quando os municípios do interior solicitam a vaga, o hospital está lotado. Nós temos dificuldade em contratar esse profissional, mas não vemos uma movimentação de Goiânia para organizar esse serviço."

O deputado federal Zacharias Calil (UB), que foi reeleito, promete ainda para o atual mandato destinar R$ 9,9 milhões de emendas para fortalecer a área da pediatria nos municípios do interior. "São recursos para as unidades, para que os pacientes não cheguem a Goiânia em situações que podem ser resolvidas nos municípios. Mutirões de procedimentos não funcionam, mas sim a classificação de risco no dia a dia para evitar a sobrecarga em hospitais especializados."

Secretaria municipal afirma ter atendimento

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia informou que mantém atendimento de urgência pediátrica 24 horas por dia, todos os dias da semana, no Centro de Atenção Integrada à Saúde (Cais), do bairro de Campinas, com uma média de três médicos por plantão de 12 horas. "Somente em outubro foram 6.069 atendimentos de crianças na urgência da unidade." Conforme a SMS, as UPAs Dr. Paulo Garcia, na Chácara do Governador, no Jardim Itaipu, contam com atendimento pediátrico "em quase 100% dos plantões". Cada profissional recebe R$ 1,4 mil por plantão, conforme a pasta.

A SMS explicou ainda que, além do atendimento de urgência, 36 pediatras atuam em 22 unidades de atenção básica. As consultas podem ser marcadas pelo número 0800-646-1560 e também pelo WhatsApp 3542-6305. "No mês de outubro/2022 foram ofertadas 5.600 vagas de consultas de média e baixa complexidade nessas unidades, mas somente 48% das vagas foram preenchidas. Portanto, 52% ficaram ociosas por falta de procura", enfatizou na nota a SMS.

Conforme o órgão, entre 2.600 e 3 mil consultas de crianças e adolescentes são realizadas mensalmente no Centro Integrado de Pediatria (Ciped), no Jardim América, inaugurado em agosto de 2021. A SMS informou ainda que busca aumentar a oferta de pediatras na rede municipal de saúde e, para isso, mantém credenciamento aberto para novas contratações.

Portas abertas
Sobre o fato de o Hecad ser um hospital de portas abertas, que recebe pacientes sem passar pelo serviço de regulação, a SES informou que "trata-se de uma decisão de gestão e não fere os princípios do SUS". A razão, conforme a SES, "é para garantir assistência pediátrica visto as fragilidades que a rede municipal ainda apresenta". "Ciente da falta do profissional médico pediatra, que é o principal gargalo deste cenário, a SES tem trabalhado junto ao Conselho de Secretários Municipais de Saúde de Goiás (Cosems-GO) para, em conjunto, traçar estratégias e suporte visando solucionar esse problema".

Mônica Ribeiro Costa, diretora-geral do Hecad

Mônica Ribeiro Costa, diretora-geral do Hecad
 (Diomício Gomes)

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Onça que nasceu em cativeiro em Goiás é levada à Argentina para viver na natureza

Ayní tem apenas três anos de vida e deve passar por um período de adaptação de um ano na Argentina. A viagem está programada para esta quarta-feira (26)

A onça-pintada Ayní nasceu em junho de 2021 no Instituto Nex, em Corumbá de Goiás (Reprodução/Instituto Nex)

A onça-pintada Ayní nasceu em junho de 2021 no Instituto Nex, em Corumbá de Goiás (Reprodução/Instituto Nex)

A onça-pintada Ayní, que nasceu em cativeiro em Goiás, vai ser levada à Argentina nesta quarta-feira (26) para viver na natureza. O animal nasceu em junho de 2021 no Instituto Nex, localizado em Corumbá de Goiás, no Entorno do Distrito Federal. De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o custo para soltar uma onça na natureza gira em torno de R$ 1 milhão.

A mãe da pequena onça de apenas 3 anos de vida é a Jací, que foi resgatada na Amazônia há 12 anos, após ser encontrada sozinha e ferida por uma enchente, com uma fratura exposta na pata dianteira.Ela recebeu cuidados no Instituto Nex, mas devido à necessidade de cuidados específicos, acabou permanecendo no santuário de onças.

Em entrevista à TV Anhanguera, Daniela Gianni, coordenadora de projetos do Instituto Nex, explicou que Ayní é a primeira onça nascida em cativeiro no Brasil que será solta na natureza, embora seja a terceira a ser levada à Argentina, após outras duas fêmeas resgatadas pelo Instituto.

É um animal extremamente ameaçado, e por isso fazemos a reprodução em cativeiro. O ápice do nosso trabalho é poder soltar esses animais na natureza, tanto os resgatados, quando conseguimos reabilitá-los 100%, quanto os que nascem aqui. E, pela primeira vez, temos uma onça nascida em cativeiro com o perfil adequado para a soltura. Ela é agressiva e não gosta do contato humano", explicou Daniela.

De acordo com a coordenadora, Ayní passará por um período de adaptação na Argentina, onde conhecerá o clima local e os outros animais com os quais vai conviver. Antes da viagem, a onça passou por uma bateria de exames para garantir que está saudável.

Ela passará pelo menos um ano de treinamento, caçando animais da região, e depois será feita a soltura branda, ou seja, a porta do recinto será aberta e ela poderá entrar e sair quando quiser. Precisamos deixar a natureza seguir seu curso, e nada nos deixa mais felizes do que ver essa espécie vivendo livre", comemora Daniela Gianni.

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Covid 5 anos: sequelas da pandemia seguem vivas

Em 26 de março de 2020, morria a primeira vítima do coronavírus em Goiás. Viúvo e filhas de Maria Lopes ainda choram a perda devido à doença que devastou centenas de milhares de famílias no Brasil

Irmãs Iara e Sandra celebram a vida de seu pai, Paulo Alves de Souza, 1º paciente do HCamp na pandemia (Wildes Barbosa / O Popular)

Irmãs Iara e Sandra celebram a vida de seu pai, Paulo Alves de Souza, 1º paciente do HCamp na pandemia (Wildes Barbosa / O Popular)

Cinco anos depois, ainda é difícil aos familiares de Maria Lopes de Souza recordar o momento de sua partida após a infecção pelo Sars-CoV-2, que por muito tempo foi chamado de "novo coronavírus", surgido na China. A técnica de enfermagem aposentada, então com 66 anos, moradora de Luziânia, município do Entorno do Distrito Federal, foi a primeira vítima fatal da Covid-19 em Goiás. Naquele 26 de março de 2020, o Brasil já registrava 76 mortes, mas ainda havia um cenário de incertezas. No Estado, as autoridades de saúde buscavam respostas para delinear a melhor forma de atendimento à população. A perplexidade pairava Brasil afora.

A assistente social Sandra de Souza, 46, filha caçula de Maria Lopes, busca na memória os dias que antecederam a morte da mãe. "Estávamos com muito medo, as escolas tinham parado de funcionar e nós orientamos nossos pais a ficarem isolados na fazenda, sem receber ninguém." No dia 13 de março, o Decreto 9.633/2020 definiu a situação de emergência na saúde pública em Goiás e a partir daí vieram sucessivos decretos determinando isolamentos. Sandra conta que no final da primeira quinzena de março a mãe foi a uma igreja. "Acreditamos que foi o local da contaminação, porque ela não saía de casa."

O mal-estar respiratório de Maria e do marido Paulo Alves de Souza, então com 72 anos, alertou os filhos. "Pensamos em pneumonia, mas estranhamos porque ficaram doentes juntos", relata Sandra. Levaram o casal a uma unidade de pronto atendimento (UPA), onde foi medicado. Como a febre de Maria não cedeu, ela se dirigiu a um hospital privado de Luziânia e o médico a encaminhou para a UPA do Jardim Ingá, por entender que a unidade pública estaria mais preparada para casos daquele vírus desconhecido. "Ela ficou na sala vermelha e lá não tinha tomografia. Minha irmã a levou para um hospital particular de Valparaíso e o exame deu sugestivo de Covid", lembra a filha.

Maria Lopes de Souza: vítima da doença e do negacionismo (Divulgação)

Maria Lopes de Souza: vítima da doença e do negacionismo (Divulgação)

"Foi aterrorizante. Cinco anos depois é difícil falar nisso. Enquanto tentávamos entender o que estava acontecendo, agarrados a qualquer fio de esperança, o que recebíamos era desinformação. Diziam que era exagero, que era só uma "gripezinha" e que o medo era infundado." Maria Lopes foi transferida para Goiânia e internada no Hospital de Doenças Tropicais (HDT), então a unidade referência para atender infectados pelo novo coronavírus. Ela morreu na madrugada do dia 26, um dia após a internação. As autoridades de saúde anunciaram o óbito ressaltando que se tratava de uma paciente com comorbidades.

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Ao saber da morte da mulher, Paulo começou a passar mal e foi levado para a UPA do Jardim Ingá e de lá para Goiânia, tornando-se o paciente inaugural do primeiro Hospital de Campanha (HCamp) para enfrentamento da nova doença, montado em 14 dias no antigo Hospital do Servidor Público, que nunca tinha funcionado. "Era tudo novo e foi muito sofrido para a família. As pessoas evitavam contato conosco. Não passavam na calçada de nossas casas. Até parentes tinham receio. Na época, eu não conseguia falar no assunto", lembra a filha. Paulo ficou internado por seis dias. Sua alta foi muito comemorada pelos servidores, mas psicologicamente o motorista aposentado estava devastado.

"Ele se recuperou rapidinho, mas ficou depressivo. Até hoje, quando toca no assunto, chora", afirma a filha. Paulo não ficou com sequelas da Covid-19 e, aos 77 anos, continua morando na propriedade rural da família. Ele e Maria tiveram três filhos (Iara, Luis Carlos e Sandra), nove netos e dois bisnetos. "Há cinco anos, a Covid-19 mudou o mundo. Para nós, é uma mudança que tem nome, tem rosto e tem ausência. Nossa mãe é uma das vítimas dessa doença que muitos insistiram em negar. A nossa perda não foi só um número. Foi um vazio que nunca mais se preencheu. O que dói não é só a perda, mas a maneira como tudo aconteceu. Além da dor de ver quem a gente ama partir, tivemos que enfrentar o peso da negação, do descaso e da mentira."

Para enfrentar o luto, Sandra decidiu homenagear a mãe criando dois perfis em redes sociais -- @oamorquefica -- que, juntos, somam 1 milhão de seguidores. Neles, além de amor, ela fala de ausência e de resiliência. "A dor persiste, a saudade sufoca e a revolta ainda arde. Nossa mãe não foi só uma estatística, foi amor, foi história e foi vida. Ela foi tirada de nós por um vírus e por um sistema que preferiu fechar os olhos para a verdade", enfatiza.

Relações desfeitas pelo vírus

Marcada pela dor, a história de Maria e Paulo Lopes de Souza, até então um anônimo casal de Luziânia, se soma a muitas outras que vieram depois. No dia 12 de março, data em que o Brasil registrou a primeira morte por Covid-19, o músico Roberto Célio Pereira da Silva, o Xexéu, vestiu uma camiseta com a inscrição "Cláudia-se" para uma de suas apresentações. Foi a forma que encontrou para homenagear a afilhada e amiga Cláudia Garcia, cantora que morreu aos 49 anos no dia 26 de fevereiro de 2021. "Hoje chorei muito", contou ao POPULAR. Cláudia foi aliada de Xexéu na criação do projeto Adote a Arte que forneceu alimentos e material de limpeza ao pessoal da cultura que ficou sem trabalho durante a pandemia.

O músico Xexéu mostra no celular a foto com a amiga e cantora Cláudia Vieira, vítima da Covid-19 em fevereiro de 2021 (Diomício Gomes / O Popular)

O músico Xexéu mostra no celular a foto com a amiga e cantora Cláudia Vieira, vítima da Covid-19 em fevereiro de 2021 (Diomício Gomes / O Popular)

Xexéu e a mulher Daniela foram contaminados. Ele chegou a ficar internado com 50% do pulmão comprometido e caiu em tristeza profunda após a morte de Cláudia Garcia. Mas não deixou seu propósito esmorecer. Mobilizou amigos e fez a diferença, assim como outros colegas do meio cultural, entre eles o músico Carlos Brandão e o artista circense Maneco Maracá, que também lideraram iniciativas semelhantes. "Estimo que 15 mil cestas tenham sido distribuídas pelo Adote a Arte no auge da pandemia e depois", afirma. Xexéu lembra ainda que os artistas foram uma espécie de agentes de saúde naquele período tenebroso. "As lives -- apresentações online -- salvaram muita gente da depressão."

Quase dez meses após Goiás ter sido apresentado oficialmente à pandemia e suas consequências sanitárias, econômicas e emocionais, a capital passou por um momento espinhoso. Aos 71 anos, o ex-governador Maguito Vilela morreu no dia 13 de janeiro de 2021 em decorrência das sequelas da Covid. Em agosto do ano anterior, o político havia perdido duas irmãs em Jataí para a doença. Maguito já estava internado quando foi eleito para administrar Goiânia com 52% dos votos no segundo turno das eleições de 2020. Tomou posse de forma virtual e se licenciou do cargo. A gestão da capital pelos quatro anos seguintes ficaria a cargo do vice, Rogério Cruz.

No tribunal

A técnica judiciária Ariony Chaves de Castro, responsável pelo centro de memória do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (TRT-GO), fez da dor uma catarse. Em outubro de 2020, ela viu a Covid levar a cunhada, o irmão, os sogros dele. Em 2021, perdeu a irmã. "O Tribunal ficou fechado, mas trabalhei todos os dias. Foi o período em que mais produzi.Em alguns dias, eu sentava no chão e chorava muito. Tinha muito medo de morrer e deixar meu filho, então com 16 anos. O que me salvou foi a minha fé."

Servidora do TRT, Ariony Chaves, que perdeu 5 pessoas da familia para a Covid, fez documentário sobre a pandemia no tribunal: “O que me salvou foi a minha fé” ( Wesley Costa / O Popular)

Servidora do TRT, Ariony Chaves, que perdeu 5 pessoas da familia para a Covid, fez documentário sobre a pandemia no tribunal: “O que me salvou foi a minha fé” ( Wesley Costa / O Popular)

Ariony produziu o documentário A Repercussão da Pandemia de Covid-19 no TRT-GO, em que mostra as providências para manter o serviço jurisdicional e depoimentos de servidores e magistrados atingidos pela doença. A produção foi exibida no Festival Internacional de Cinema Ambiental (Fica) e concorre este ano ao Prêmio CNJ do Poder Judiciário.

Foi em 2021 que foi registrado o maior número de óbitos pela doença, em razão da chegada da variante ômicron, uma mutação do coronavírus. O produtor Felipe Jorge Kopanakis acompanhou em Goiânia o sofrimento do pai de 81 anos, que ficou cinco dias intubado antes de morrer, em maio daquele ano. Ele vivia em Niterói (RJ) e colaborou na produção do filme Mulheres & Covid, assinado pela irmã Fernanda Kopanakis e Ivan de Angelis, uma parceria com a Fiocruz. Depois disso, se cadastrou na Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid (Avico). "A Covid impactou todo mundo. Fui me aprofundando no tema e vejo que um dos grandes problemas da sociedade brasileira é esquecer o passado. Houve uma onda de desinformação e mentiras, precisamos lutar contra isso."

Membro de uma organização não governamental que atua com cinema e literatura em escolas públicas às margens dos rios Guaporé, Amazonas e Negro, na Amazônia, Jorge Kopanakis conta que após a pandemia só conseguiu voltar à região em 2024. "O impacto da Covid nessas comunidades distantes foi imenso. Já existe um isolamento natural porque não têm estradas. Para chegar a Manaus, é preciso pegar uma voadora (tipo de barco comum na Amazônia) e viajar 12 horas. Ninguém chegava e as pessoas foram morrendo. Teve um professor que morreu por falta de oxigênio." O produtor pretende se dedicar a um documentário sobre vacinação. "A taxa vacinal do País caiu. Estamos negando a ciência."

IcEconomia

Emprego

Empresas oferecem mais de 80 vagas de emprego em Goiás

Há oportunidades para costureira, ajudante de pedreiro, representante comercial, auxiliar de RH e muito mais. Confira os prazos e como se candidatar

Carteira de trabalho digital e física

Carteira de trabalho digital e física (Reprodução)

Veja as vagas de emprego disponíveis em Goiás nesta quarta-feira (26). Há oportunidades para costureira, ajudante de pedreiro, representante comercial, auxiliar de RH e muito mais. Confira os prazos e como se candidatar.

Veja as vagas disponíveis:

Goiânia

Consciente Construtora

Total de vagas oferecidas: 30 vagas
Cargo oferecido:

30 vagas para ajudante de pedreiro

Prazo para se inscrever: indeterminado
Salário: a combinar
Como se candidatar: entrar em contato pelo telefone ou Whatsapp (62) 99692-6375
Contato: (62) 99692-6375

Assaí Atacadista

Total de vagas oferecidas: 23 vagas
Cargos oferecidos:

2 vagas para repositor de perecíveis
2 vagas para repositor de mercearia
2 vagas para prevenção de perdas
1 vaga para auxiliar de açougue
3 vagas para operador de depósito
10 vagas para operador de caixa
1 vaga para auxiliar de RH
1 vaga para auxiliar de refeitório
1 vaga para locutor

Prazo para se inscrever: indeterminado
Salário: de R$ 1.523,00 A R$ 1.831,00 - a depender do cargo
Como se candidatar: enviar currículo para o Whatsapp (62) 99677-5731
Contato: (62) 99677-5731

Unicom

Total de vagas oferecidas: 30 vagas
Cargo oferecido:

30 vagas para consultor de vendas

Prazo para se inscrever: até 19/04
Salário: a combinar
Como se candidatar: enviar currículo para o e-mail selecao@emporioprime.net ou WhatsApp (62) 98191‑9614
Contato: (62) 98191‑9614

Aparecida de Goiânia

JM Cortinas

Total de vagas oferecidas: 2 vagas
Cargos oferecidos:

1 vaga pra costureira
1 vaga para auxiliar de costureira

Prazo para se inscrever: indeterminado
Como se candidatar: enviar currículo para o Whatsapp (62) 99905-5426
Contato: (62) 99905-5426

Piracanjuba

Grão Dourado Industrial e Comercio

Vagas oferecidas: 2 vagas
Cargo oferecido:

2 vagas para representante comercial

Prazo para se inscrever: até 20/04/2025
Salário: a combinar
Como se candidatar: encaminhar o currículo para o WhatsApp (64) 99226-1001
Contato: (64) 99226-1001 ou (64) 99968-0025

IcEconomia

Emprego

Empresas oferecem mais de 50 vagas de emprego em Goiás

Há oportunidades para montador industrial, meio oficial de produção, corretor de imóveis, auxiliar de serviços gerais e muito mais. Confira os prazos e como se candidatar

Carteira de trabalho

Carteira de trabalho

Veja as vagas de emprego disponíveis em Goiás nesta terça-feira (25). Há oportunidades para montador industrial, meio oficial de produção, corretor de imóveis, auxiliar de serviços gerais e muito mais. Confira os prazos e como se candidatar.

Veja as vagas disponíveis:

Goiânia

BM Máquinas

Total de vagas oferecidas: 4 vagas
Cargos oferecidos:

Soldador - 1 vaga
Montador industrial - 1 vaga
Meio oficial de produção - 1 vaga
Assistente administrativo - 1 vaga

Prazo para se inscrever: não divulgado
Salário: a combinar
Como se candidatar: enviar currículo pelo Whatsapp (62) 9 9866-0050
Contato: (62) 9 9866-0050

My Broker Eldorado

Total de vagas oferecidas: 10 vagas
Cargos oferecidos:

Corretor de imóveis - 10 vagas

Prazo para se inscrever: indeterminado
Salário: a combinar
Como se candidatar: enviar currículo para o Whatsapp (62) 99866-0050
Contato: (62) 99866-0050

Empório Prime Supermercado

Total de vagas oferecidas: 9 vagas
Cargos oferecidos:

Auxiliar de serviços gerais - 1 vaga
Auxiliar de depósito - 2 vagas
Auxiliar de padaria - 1 vaga
Repositor de loja - 3 vagas
Fiscal de loja - 1 vaga
Atendente de loja - 1 vaga

Prazo para se inscrever: 30/03/2025
Salário: a combinar
Como se candidatar: enviar currículo para o e-mail selecao@emporioprime.net ou WhatsApp (62) 99617-1214
Contato: (62) 99617-1214

Aparecida de Goiânia

Imperador Alimentos

Total de vagas oferecidas: 26 vagas
Cargo oferecido:

Ajudante de motorista - 5 vagas
Auxiliar de produção 2° turno - 10 vagas
Auxiliar de estoque 2° turno - 1 vaga
Assistente financeiro - 1 vaga
Jovem aprendiz - 7 vagas
Auxiliar de manutenção predial - 1 vaga
Analista de PCP - 1 vaga

Prazo para se inscrever: indeterminado
Como se candidatar: enviando o currículo para o e-mail selecao@realdec.com.br
Contato: (62) 3250-0567

Piracanjuba

Grão Dourado Industrial e Comercio

Vagas oferecidas: 2 vagas
Cargos oferecidos:

Representante comercial - 2 vagas

Prazo para se inscrever: até 20/04/2025
Salário: a combinar
Como se candidatar: encaminhar o currículo para o WhatsApp (64) 99226-1001
Contato: (64) 99226-1001 ou (64) 99968-0025