Prédio, de propriedade de um pool de empresas que adquiriram o imóvel quando a Celg foi vendida, em 2016, estava sem ocupação oficial desde meados de 2019
Pouco mais de um mês depois que o prefeito Sandro Mabel e o presidente da Câmara Municipal, vereador Romário Policarpo, gravaram um vídeo em frente ao imóvel da antiga sede da Centrais Elétricas de Goiás (Celg) e da Secretaria de Estado de Educação (Seduc) falando sobre exemplos de imóveis abandonados na capital, os restos da construção começaram a ser demolidos nesta segunda-feira (17). O prédio, de propriedade de um pool de empresas que adquiriram o imóvel quando a Celg foi vendida, em 2016, estava sem ocupação oficial desde meados de 2019.
De acordo com a Prefeitura de Goiânia, o alvará da demolição foi concedido no último dia 13, após pedido dos proprietários, e é executado quatro dias depois. Segundo populares que circulam próximo ao local, na Avenida Anhanguera, Setor Oeste, as máquinas começaram a atuar no meio da manhã e ficaram no local até por volta das 16 horas, o que deve continuar no decorrer da semana. Ainda resta pedaços de construção no local, além de faltar a limpeza do que já foi demolido. Não há qualquer registro na administração municipal de processo para uma nova ocupação da área. A reportagem tentou contato com as empresas proprietárias, mas não recebeu retorno até o fechamento da matéria.
Entre meados de 2019, quando a Seduc desocupou o prédio que era alugado ao Estado por cerca de R$ 500 mil mensais, o imóvel sofreu com um processo de abandono, o que foi objeto de denúncia da reportagem em 2020 em razão da situação, especialmente pela presença de um afresco do artista plástico Frei Nazareno Confaloni, de nove metros de largura por três metros de altura. Confaloni é um dos criadores da Escola de Belas Artes de Goiás. Na época, o painel chegou a ser vandalizado com uma tinta preta, e o abandono, com infiltrações e outros problemas, pioravam a situação da obra.
Ainda em 2019, o imóvel teve um processo de tombamento analisado pela Secretaria de Estado de Cultura de Goiás, por ser um representante da arquitetura modernista em Goiânia. Porém, o Conselho Estadual de Cultura (CEC) decidiu pelo não tombamento definitivo do prédio devido ao estado de deterioração do imóvel. "A reconstrução do imóvel criará o que se chama de falso histórico, numa obra altamente dispendiosa em um bem cuja importância e valor histórico não são unânimes", diz o parecer emitido em 2023 do CEC, segundo a Secult.
Em 2021, os proprietários do imóvel tentaram a demolição do local, o que foi repudido por entidades como o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), justamente pela relevância histórica na capital. A ação foi suspensa pelo processo de tombamento que ainda estava em curso. Sobre o afresco de Frei Cofaloni, a obra foi resgatada em agosto de 2023 pelo Estado de Goiás. Ele está, desde então no Centro Cultural Oscar Niemeyer (CCON). "O Conselho Estadual de Cultura emitiu parecer favorável para a permanência do painel de Frei Confaloni intitulado 'Energia elétrica: a origem, a invenção e o usufruto' em Goiânia para a realização de sua restauração", informa a pasta.
Em abril de 2024, o governador Ronaldo Caiado chegou a anunciar a transferência da obra para o Museu Histórico Dominicano Frei Nazareno Confaloni, situado na cidade de Goiás. "Contudo, os pareceres técnicos solicitados pela Secult se posicionaram a favor da manutenção do painel em Goiânia devido ao risco que a obra corre no deslocamento para a cidade de Goiás e a falta de infraestrutura adequada e necessária no espaço reservado para recebê-la."
Nos últimos anos, o imóvel foi a "sede" do Museu do Depois do Amanhã (Mudda), um projeto de extensão vinculado à Universidade Federal de Goiás (UFG), que "lança um olhar sobre estruturas abandonadas" na cidade e que funcionou como uma galeria a céu aberto de obras de artes plásticas que utilizavam a estrutura e a marginalidade do local. A última ação cultural no espaço foi a gravação do filme "Noite de Jazz", videoclipe do rapper goiano Ajay. A obra é do diretor goiano Robson Vieira, ja indicado em premiações nacionais na categoria videoclipe.

Prédio tinha arquitetura modernista e chegou a ser cotado para tombamento ( Diomício Gomes / O Popular)
O prédio da Avenida Anhanguera, esquina com a Rua R-7, no Setor Oeste, próximo ao Hospital Estadual da Mulher, foi sede da antiga Celg, desde a sua construção, no final dos anos 1950 até a venda da empresa, em 2016. A obra é do engenheiro Oton Nascimento e do arquiteto Gustav Ritter. Segundo o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), em parecer contrário a demolição do imóvel em 2021, o prédio "tem características modernistas, além do edifício ser um exemplar autêntico do modo de entender e fazer Arquitetura de uma época, sua localização é emblemática dentro de um circuito de outros espaços importantes na cidade". Ainda na década de 1960, o artista plástico Frei Confaloni pintou o afresco "Energia elétrica: a origem, a invenção e o usufruto" em uma das paredes do prédio. O local foi vendido em 2016, após um leilão.